Tumores Cardíacos - Classificação Ecocardiográfica
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Classificação dos Tumores Cardíacos
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Tipo Frequência Características
Tumores Primários 0,001-0,03% Originam-se no próprio coração; 75% são benignos e 25% malignos
Tumores Secundários (Metástases) 20-40x mais frequentes Originam-se de outros órgãos; pericárdio é o local mais acometido
💡 Epidemiologia: A incidência de tumores cardíacos primários em autópsias é de 0,001% a 0,03%. Metástases cardíacas são encontradas em 6-20% dos pacientes oncológicos em autópsia, sendo 20-40 vezes mais frequentes que os tumores primários.1,7
Tumores Primários Benignos (75%)
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Tumor Frequência Localização Típica
Mixoma 40-50% Átrio esquerdo (75%), septo interatrial
Fibroelastoma Papilar 8-10% Valva aórtica (35-63%), valva mitral (9-55%)
Lipoma ~10% Subendocárdico, subepicárdico ou intramural
Rabdomioma 1º em crianças Ventrículos (90% associado a Esclerose Tuberosa)
Fibroma 2º em crianças Septo interventricular, parede livre do VE
Hemangioma ~5% Qualquer localização cardíaca
Tumores Primários Malignos (25%)
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Tumor Frequência Características Clínicas
Sarcomas (total) 95% dos malignos Crescimento rápido, invasão local, metástases
Angiossarcoma 33-40% Átrio direito, derrame hemorrágico, homens 2:1
Sarcoma indiferenciado ~25% Átrio esquerdo, pode mimetizar mixoma
Leiomiossarcoma ~8% Átrio esquerdo, associado a veias pulmonares
Rabdomiossarcoma ~5% Múltiplas localizações, mais comum em crianças
Linfoma Primário 1-2% Átrio direito, imunocomprometidos (HIV, transplante)
🚨 Sinais Ecocardiográficos de Malignidade
  • Localização em câmaras direitas - tumores malignos são quase exclusivos do coração direito, especialmente átrio direito7
  • Base larga de implantação - diferente dos mixomas que são pedunculados
  • Invasão de estruturas adjacentes - parede, pericárdio, grandes vasos
  • Derrame pericárdico hemorrágico - característico do angiossarcoma
  • Crescimento rápido documentado em exames seriados
  • Múltiplas massas - sugestivo de metástases
Mixoma Atrial - Tumor Cardíaco Primário Mais Comum
🔍 Características Clínicas e Ecocardiográficas
Epidemiologia:2
  • Representa 40-50% de todos os tumores cardíacos primários
  • Incidência entre 0,0017% e 0,19% em autópsias não selecionadas
  • Predominância feminina (2-3:1), pico entre 30-60 anos
  • Maioria esporádica; 7% familiar (Síndrome de Carney)
Localização:2,4
  • 75% no átrio esquerdo, 18% no átrio direito
  • Origem típica: septo interatrial na região da fossa oval
  • Raramente biatrial (<5%) ou ventricular (<3%)
Aspecto Ecocardiográfico:5
  • Massa pedunculada com base estreita, altamente móvel
  • Ecogenicidade heterogênea (áreas de hemorragia, necrose, calcificação)
  • Superfície irregular, frequentemente vilosa ou frondosa
  • Pode prolapsar através da valva mitral na diástole ("tumor plop" - sopro diastólico)
  • Tamanho variável: 1-15 cm (média 4-8 cm)
  • Com contraste: realce parcial (diferente de trombo que não realça)
Tríade Clínica Clássica:2
  • Obstrução intracardíaca: síncope posicional, dispneia, pseudoestenose mitral
  • Embolização sistêmica: AVC (30-40%), embolia periférica, IAM
  • Sintomas constitucionais: febre, perda de peso, anemia, VHS elevado (por liberação de IL-6)
⚠️ Síndrome de Carney (Complexo de Carney)
Quando suspeitar: pacientes jovens (<40 anos), mixomas múltiplos, recorrentes ou em localizações atípicas (ventricular).

Componentes: Mixomas cardíacos e cutâneos + lentigos/nevos pigmentados + schwannomas + tumores endócrinos (adrenal, testicular, hipofisário).

Genética: Mutação PRKAR1A, herança autossômica dominante. Recomenda-se rastreamento familiar.2
Fibroelastoma Papilar
🌸 Segundo Tumor Benigno Mais Comum em Adultos
Epidemiologia:3
  • Representa 8-10% dos tumores cardíacos primários
  • Tumor valvar primário mais comum (75% dos tumores valvares)
  • Idade média: 60 anos, sem preferência por sexo
  • Análise de 725 casos: 55% homens, pico na 8ª década
Localização Valvar:3
  • Valva aórtica: 35-63% (face ventricular)
  • Valva mitral: 9-55% (face atrial)
  • Valva tricúspide: 6-15%
  • Valva pulmonar: 0,5-8%
  • Estruturas não valvares: VE é o sítio mais comum
Aspecto Ecocardiográfico Característico:3,5
  • Massa pequena: 2-40 mm (média 9 mm)
  • Pedunculada com pedículo único e curto
  • Bordas "stippled" ou cintilantes - aparência de "anêmona-do-mar" (sea anemone)
  • Mobilidade independente da valva
  • Homogênea, ecobrilhante
  • Projeções papilares finas semelhantes a tentáculos
Risco Embólico e Tratamento:3
  • AVC: presente em 30% dos casos sintomáticos
  • AIT, IAM, morte súbita: complicações documentadas
  • Fatores de risco: tamanho >9 mm, alta mobilidade, lado esquerdo
  • Excisão cirúrgica: tratamento de escolha, mesmo se assintomático
  • Anticoagulação: alternativa para pacientes com alto risco cirúrgico
Angiossarcoma - Tumor Maligno Primário Mais Comum
☠️ Prognóstico Reservado
Epidemiologia:7
  • Representa 33-40% de todos os sarcomas cardíacos
  • Incidência: 0,0001% em séries de autópsia
  • Predominância masculina (2:1)
  • Pico de incidência: 3ª a 5ª década de vida
Localização Característica:7
  • Átrio direito: localização quase exclusiva (diferente dos tumores benignos)
  • Frequente extensão para pericárdio e mediastino
  • Pode obstruir veia cava superior
Apresentação Clínica:7
  • Sintomas tardios e inespecíficos
  • Insuficiência cardíaca direita: apresentação mais comum
  • Dispneia, dor torácica, palpitações, febre, mialgia
  • Derrame pericárdico hemorrágico (altamente sugestivo)
  • Arritmias, síndrome da veia cava superior
  • 80% apresentam metástases sistêmicas ao diagnóstico
Prognóstico:7
  • Sobrevida mediana: 6 meses
  • Ressecção completa: sobrevida de 24 meses
  • Ressecção incompleta: sobrevida de 10 meses
  • Sobrevida em 1 ano: 39%; em 5 anos: 8%
Rabdomioma - Tumor Cardíaco Mais Comum em Crianças
👶 Tumor Benigno Pediátrico
Epidemiologia:1,4
  • Tumor cardíaco primário mais comum em crianças (40-60% dos casos pediátricos)
  • Fortemente associado à Esclerose Tuberosa (50-80% dos casos)
  • Pode ser detectado no período fetal (a partir de 20 semanas)
Características Ecocardiográficas:4,5
  • Múltiplos em 90% dos casos
  • Localização ventricular predominante (septo e paredes livres)
  • Massa homogênea, hiperecogênica, bem delimitada
  • Intramural (dentro do miocárdio)
  • Pode causar obstrução de via de saída
Evolução Natural:4
  • Regressão espontânea é a regra
  • Maioria resolve até 4 anos de idade
  • Regressão pode ser acelerada com everolimo (inibidor de mTOR)
  • Cirurgia apenas se sintomas obstrutivos graves ou arritmias refratárias
Associação com Esclerose Tuberosa:
  • Rabdomioma cardíaco pode ser a primeira manifestação
  • Investigar: lesões cutâneas, renais e cerebrais
  • Genética: mutações TSC1 ou TSC2
Lipoma Cardíaco
🔘 Terceiro Tumor Benigno Mais Comum em Adultos
Epidemiologia:1,4
  • Representa aproximadamente ~10% dos tumores cardíacos primários benignos
  • Predominância em adultos de meia-idade
  • Sem preferência por sexo
  • Frequentemente assintomático (achado incidental)
Localização:4
  • Subendocárdico: projeta-se para a cavidade cardíaca
  • Subepicárdico: projeta-se para o espaço pericárdico
  • Intramural/Intramioócardico: dentro da parede miocárdica
  • Septo interatrial é localização frequente (pode causar lipomatose do septo)
  • Qualquer câmara pode ser acometida
Aspecto Ecocardiográfico:4,5
  • Massa bem circunscrita, encapsulada
  • Ecogenicidade homogênea, tipicamente hiperecogênica
  • Base larga (séssil) - diferente do mixoma
  • Sem mobilidade significativa
  • Não realça com contraste (avascular)
  • TC/RM: densidade de gordura característica (atenuação negativa na TC)
Diagnóstico Diferencial:4
  • Lipomatose do septo interatrial: espessamento >2 cm do septo, poupa a fossa oval ("sinal do haltere"), não é neoplásico
  • Lipossarcoma: extremamente raro no coração, heterogêneo, invasivo
  • Hibernoma: tumor de gordura marrom, muito raro
Manejo:1
  • Maioria assintomática: seguimento clínico e ecocardiográfico
  • Cirurgia apenas se sintomáticos (arritmias, obstrução) ou crescimento documentado
  • Prognóstico excelente após ressecção
Tumores Secundários (Metástases Cardíacas)
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Tumor Primário Frequência em Autópsia Via de Disseminação Localização Cardíaca
Melanoma 28-64% Hematogênica Miocárdio, epicárdio (maior tropismo cardíaco)
Carcinoma Brônquico 25-35% Linfática, extensão direta Pericárdio (mais comum), miocárdio
Carcinoma de Mama 15-25% Linfática Pericárdio predominante
Linfoma/Leucemia 15-25% Hematogênica, linfática Pericárdio, miocárdio difuso
Mesotelioma Pleural 28-56% Extensão direta Pericárdio
Carcinoma Renal 10-15% Extensão venosa (VCI) AD via invasão direta da VCI
Hepatocarcinoma 5-10% Extensão venosa (VCI) AD via invasão direta da VCI
🔬 Vias de Disseminação Metastática8
  • Extensão direta: Tumores de pulmão, esôfago, mediastino, mama → pericárdio
  • Via hematogênica: Melanoma (maior afinidade pelo coração), sarcomas → miocárdio
  • Via linfática: Carcinomas de mama e pulmão → pericárdio, linfonodos
  • Extensão venosa (intracavitária): Carcinoma renal e hepatocarcinoma → VCI → átrio direito

Nota clínica: A maioria das metástases cardíacas permanece clinicamente silenciosa. Apenas <2% dos pacientes com melanoma metastático têm diagnóstico de metástase cardíaca em vida, apesar de 28-64% apresentarem envolvimento cardíaco em autópsia.8
Diagnóstico Diferencial de Massas Cardíacas
🔍 Não Confundir com:5,6
Trombos (causa mais comum de massa intracardíaca):
  • Contexto clínico: FA, disfunção VE grave, próteses valvares
  • Localizações típicas: apêndice atrial esquerdo, ápice do VE (aneurisma)
  • Geralmente laminares ou sésseis, aderidos à parede
  • Não realçam com contraste ecocardiográfico (diferente de tumores)
Vegetações (segunda causa mais comum):
  • Aderidas às valvas (faces de baixa pressão)
  • Face atrial: mitral e tricúspide; face ventricular: aórtica e pulmonar
  • Móveis, irregulares, oscilantes
  • Contexto clínico de endocardite infecciosa
Variantes Anatômicas Normais:
  • Crista terminalis: estrutura proeminente no AD
  • Rede de Chiari: remanescente embrionário no AD
  • Válvula de Eustáquio: na junção VCI-AD
  • Banda moderadora: trabécula muscular no VD
  • Falso tendão: cordas anômalas no VE
  • Lipomatose do septo interatrial
Protocolo de Avaliação Ecocardiográfica
📋 Avaliação Sistemática de Massas Cardíacas5,6
1. Localização:
  • Câmara cardíaca acometida (AD sugere malignidade; AE sugere mixoma)
  • Relação com valvas e estruturas adjacentes
  • Ponto de inserção/base de implantação (pedículo estreito vs base larga)
2. Morfologia:
  • Tamanho em 3 dimensões
  • Forma: pedunculada (benigno) vs séssil/infiltrativa (maligno)
  • Superfície: lisa vs irregular/vilosa
  • Ecogenicidade: homogênea vs heterogênea
  • Presença de calcificações, necrose ou áreas císticas
3. Mobilidade:
  • Grau de mobilidade (alta mobilidade = maior risco embólico)
  • Prolapso através de valvas
  • Movimento independente vs aderido
4. Repercussão Hemodinâmica:
  • Obstrução de fluxo (gradientes elevados)
  • Regurgitação valvar secundária
  • Derrame pericárdico associado (hemorrágico = maligno)
5. Uso de Contraste:
  • Tumores vascularizados: realce com contraste
  • Trombos: ausência de realce
  • Mixomas: realce parcial/heterogêneo
Quando Suspeitar de Tumor Cardíaco
⚠️ Indicações para Investigação1,6
  • Eventos embólicos inexplicados - AVC em jovens sem fatores de risco cardiovascular
  • Síncope posicional - sugere obstrução intermitente (mixoma prolapsante)
  • Sopro cardíaco variável com mudanças de posição ("tumor plop")
  • Sintomas constitucionais (febre, emagrecimento, anemia) + alterações cardíacas
  • Arritmias refratárias sem cardiopatia estrutural conhecida
  • Derrame pericárdico recorrente ou hemorrágico (altamente sugestivo de malignidade)
  • Pacientes oncológicos com novos sintomas cardíacos ou derrame pericárdico
  • Esclerose Tuberosa - rastreamento obrigatório (especialmente em neonatos)
  • História familiar de tumores cardíacos ou Síndrome de Carney
  • Insuficiência cardíaca direita inexplicada (especialmente com massa no AD)
ETT vs ETE na Avaliação de Massas Cardíacas5,6
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Característica ETT (Transtorácico) ETE (Transesofágico)
Papel clínico Triagem inicial, detecção Caracterização detalhada, planejamento cirúrgico
Átrio esquerdo/Apêndice Limitado (especialmente AAE) Excelente (padrão-ouro para AAE)
Avaliação valvar Adequado para screening Superior (fibroelastomas pequenos)
Base de implantação Pode ser difícil definir Bem visualizada (crucial para cirurgia)
Estruturas posteriores Limitado pela janela acústica Excelente (proximidade do esôfago)
Intraoperatório Não aplicável Fundamental para guiar ressecção
💡 Ressonância Magnética Cardíaca: Complementar e superior na caracterização tecidual. Permite diferenciar tumor vs trombo, avaliar invasão miocárdica, e caracterizar o tipo de tumor (realce tardio com gadolínio). Indicada quando ETT/ETE são inconclusivos.4,5
📚 Referências Bibliográficas
1
Butany J, Nair V, Naseemuddin A, et al. Cardiac tumours: diagnosis and management. The Lancet Oncology. 2005;6(4):219-228. DOI
2
Reynen K. Cardiac myxomas. New England Journal of Medicine. 1995;333(24):1610-1617. DOI
3
Gowda RM, Khan IA, Nair CK, et al. Cardiac papillary fibroelastoma: a comprehensive analysis of 725 cases. American Heart Journal. 2003;146(3):404-410. DOI
4
Basso C, Rizzo S, Valente M, Thiene G. Cardiac masses and tumours. Heart. 2016;102(15):1230-1245. DOI
5
Mankad R, Herrmann J. Cardiac tumors: echo assessment. Echo Research and Practice. 2016;3(4):R65-R77. DOI
6
Bruce CJ. Cardiac tumours: diagnosis and management. Heart. 2011;97(2):151-160. DOI
7
Hoffmeier A, Sindermann JR, Scheld HH, Martens S. Cardiac tumors—diagnosis and surgical treatment. Deutsches Ärzteblatt International. 2014;111(12):205-211. DOI
8
Goldberg AD, Blankstein R, Padera RF. Tumors metastatic to the heart. Circulation. 2013;128(16):1790-1794. DOI