Valvas Tricúspide e Pulmonar

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💜 Avaliação das Valvas do Coração Direito

As valvas tricúspide e pulmonar compõem o sistema valvar do coração direito. A tricúspide controla o fluxo entre o átrio direito e o ventrículo direito, enquanto a pulmonar regula a saída de sangue do ventrículo direito para a artéria pulmonar.

Embora menos comuns que as doenças valvares esquerdas, as lesões das valvas direitas têm importante impacto clínico, especialmente em contextos de hipertensão pulmonar, endocardite, doença reumática e cardiopatias congênitas.

💙 Classificação da Severidade da Insuficiência Tricúspide
📌 Sobre Esta Classificação (Hahn & Zamorano 2017 / ASE 2023)
Esta escala expandida de 5 níveis permite uma estratificação mais precisa da regurgitação grave, sendo essencial para a avaliação de pacientes candidatos a intervenções transcateter (ex: TriClip, FORMA, PASCAL). A categoria "Grave" convencional foi subdividida para melhor identificar pacientes com regurgitação maciça ou torrencial.
Grau de Severidade Vena Contracta (mm) EROA (mm²) Volume Regurgitante (mL)
Leve < 3 < 20 < 20
Moderada 3 – 6,9 20 – 39 20 – 44
Grave (Severe) 7 – 13 40 – 74 45 – 74
Massiva (Massive) 14 – 20 75 – 94 75 – 94
Torrencial (Torrential) ≥ 21 ≥ 95 ≥ 95
🚨 Refluxo Torrencial: Critérios Clínicos
O refluxo torrencial é caracterizado por:
• Ausência total de coaptação dos folhetos ("coaptation gap")
• Inversão de fluxo sistólico nas veias hepáticas de forma muito proeminente
• Geralmente associado a dilatação massiva do anel tricúspide
• Candidatos prioritários para intervenção (cirúrgica ou percutânea)
📖 Parâmetros Explicados
Vena Contracta: Diâmetro mais estreito do jato regurgitante (em mm). É o parâmetro mais reprodutível e menos dependente de condições hemodinâmicas. Medido em zoom na origem do jato, no plano apical 4 câmaras.

EROA (Effective Regurgitant Orifice Area): Área efetiva do orifício regurgitante (em mm²) calculada pelo método PISA (Proximal Isovelocity Surface Area). Padrão-ouro para quantificação objetiva da IT.

Volume Regurgitante: Volume de sangue (em mL) que retorna ao átrio direito a cada batimento. Calculado pela fórmula: Vol Regurgitante = EROA × VTI do jato regurgitante.

⚠️ Importante: A nova classificação utiliza valores mais refinados que as diretrizes anteriores, permitindo melhor seleção de pacientes para terapias percutâneas (TriClip, FORMA, PASCAL, etc.).
⚠️ Nota Técnica sobre o PISA
Embora o método PISA possa subestimar a IT em alguns casos (especialmente em jatos excêntricos ou múltiplos), os valores apresentados nesta tabela seguem os números validados internacionalmente por Hahn & Zamorano (2017) e confirmados pela ASE 2023.

Na prática clínica, alguns médicos podem utilizar valores menores como referência, mas para fins de padronização e comparação entre serviços, recomendamos seguir estritamente estes critérios oficiais, que foram validados especificamente para seleção de candidatos a intervenções transcateter.
📚 Fontes e Referências Bibliográficas
Hahn RT, Zamorano JL. The need for a new tricuspid regurgitation grading scheme. European Heart Journal - Cardiovascular Imaging. 2017 Dec 1;18(12):1342-1343.
DOI: 10.1093/ehjci/jex139

Zoghbi WA, et al. Recommendations for Noninvasive Evaluation of Native Valvular Regurgitation: A Report from the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2023.
🩺 Indicações de Intervenção (IT Grave, Massiva ou Torrencial)
Indicações de Cirurgia/Intervenção:
• IT ≥ Grave sintomática (edema, ascite, fadiga, ICC direita)
• IT ≥ Grave durante cirurgia valvar esquerda concomitante
• Dilatação progressiva do ventrículo direito
• Disfunção do ventrículo direito (TAPSE < 17mm, S' < 9,5 cm/s)
• Dilatação do anel tricúspide (≥ 40 mm ou ≥ 21 mm/m²)
• IT Massiva ou Torrencial: considerar intervenção mesmo se assintomático

Opções Terapêuticas:
Cirúrgicas (preferência em pacientes candidatos):
• Anuloplastia com anel protético (técnica de escolha)
• Plastia tricúspide (reparação dos folhetos)
• Troca valvar (biológica preferível em IT primária/estrutural)

Percutâneas (alto risco cirúrgico ou recidiva pós-cirurgia):
• TriClip/PASCAL (clipe borda-a-borda - equivalente ao MitraClip)
• Cardioband (anuloplastia percutânea)
• FORMA (espaçador no seio coronário para redução do anel)
• Troca valvar transcateter (TTVI - em desenvolvimento)
💡 Classificação por Mecanismo - IT
IT Primária (Orgânica):
• Doença reumática
• Endocardite infecciosa (especialmente em usuários de drogas IV)
• Prolapso/Flail (degeneração mixomatosa, sd. Marfan)
• Carcinóide
• Congênita (Ebstein, displasia)
• Medicamentosa (fenfluramina, pergolida)

IT Secundária (Funcional): ⚠️ Mais comum!
• Dilatação do anel (hipertensão pulmonar, ICC)
• Disfunção do VD (isquemia, cardiomiopatia)
• Sobrecarga de volume (defeitos septais, FA)
• Tração dos folhetos por dilatação do VD

Importante: IT secundária representa > 80% dos casos. Tratar a causa de base!
🔷 Classificação de Carpentier para Insuficiência Tricúspide
📌 Sobre Esta Classificação Funcional
A Classificação de Carpentier descreve o mecanismo da IT baseado no movimento dos folhetos valvares, sendo essencial para o planejamento cirúrgico (plastia vs troca) e para a seleção de candidatos a reparo percutâneo (TriClip funciona melhor em Tipo I e IIIb).
🟢 Tipo I - Movimento Normal
Característica:
Folhetos se movem normalmente, mas há dilatação do anel tricúspide que impede a coaptação completa.
Causas Principais:
• IT funcional (dilatação VD/anel)
• Hipertensão pulmonar
• Insuficiência cardíaca
• Fibrilação atrial crônica
💡 Mais comum: Representa > 80% dos casos de IT!
🔧 Tratamento: Anuloplastia (anel rígido ou semirrígido)
🟡 Tipo II - Movimento Excessivo
Característica:
Prolapso ou flail de um ou mais folhetos, com movimento excessivo que ultrapassa o plano do anel.
Causas Principais:
• Degeneração mixomatosa
• Endocardite (ruptura de cordas)
• Trauma cardíaco
• Síndrome de Marfan
• Ruptura de músculo papilar
⚠️ Endocardite: Geralmente afeta o folheto anterior (mais vascularizado)
🔧 Tratamento: Plastia de folhetos ou ressecção + anuloplastia
🔴 Tipo IIIa - Restrição Sístole + Diástole
Característica:
Movimento restrito dos folhetos em sístole E diástole, com abertura e fechamento limitados.
Causas Principais:
• Doença reumática
• Síndrome carcinóide
• Doença de Ebstein
• Medicamentosa (fenfluramina)
• Fibrose/calcificação
📋 Ebstein: Displasia + deslocamento apical da tricúspide (folheto septal)
🔧 Tratamento: Troca valvar (plastia geralmente não é possível)
🟣 Tipo IIIb - Restrição Apenas Sistólica
Característica:
Movimento restrito apenas na sístole (abertura normal, fechamento limitado), devido a tração/tethering.
Causas Principais:
• Dilatação do VD (tração)
• Infarto VD (disfunção papilar)
• Cardiomiopatia dilatada
• Hipertensão pulmonar grave
🎯 TriClip: Funciona bem em IIIb! Reduz gap de coaptação.
🔧 Tratamento: Anuloplastia + tratamento da causa (VD)
🎯 Importância Clínica da Classificação de Carpentier
1. Planejamento Cirúrgico:
• Tipo I e IIIb: Candidatos ideais para plastia com anuloplastia
• Tipo II: Pode exigir ressecção ou transferência de cordas
• Tipo IIIa: Geralmente requer troca valvar (plastia difícil)

2. Seleção para Reparo Percutâneo (TriClip/PASCAL):
• ✅ Melhor resultado: Tipo I (dilatação do anel) e Tipo IIIb (tethering)
• ⚠️ Resultado variável: Tipo II (prolapso - depende da anatomia)
• ❌ Contraindicado: Tipo IIIa (folhetos rígidos/fibróticos)

3. Laudo Ecocardiográfico:
• Sempre descrever o mecanismo da IT (Carpentier)
• Avaliar mobilidade dos folhetos (normal, excessiva, restrita)
• Medir diâmetro do anel tricúspide (≥ 40 mm = dilatado)
• Avaliar coaptação (gap de coaptação sugere tethering - IIIb)
📝 Exemplo de Texto para Laudo
"Insuficiência tricúspide moderada a grave (vena contracta = 8 mm, EROA = 50 mm²), mecanismo Carpentier Tipo I (movimento normal dos folhetos com dilatação do anel tricúspide medindo 42 mm), associada a dilatação importante do ventrículo direito (área diastólica = 28 cm²) e hipertensão pulmonar moderada (PSAP = 55 mmHg). Ausência de coaptação central (gap de coaptação = 5 mm). Refluxo sistólico moderado nas veias hepáticas ao Doppler pulsado."

💡 Este formato ajuda o cirurgião a planejar a técnica (anuloplastia rígida, possivelmente associada a redução do VD), e também indica candidato potencial para TriClip caso o risco cirúrgico seja elevado.
💙 Classificação da Severidade da Estenose Tricúspide
Parâmetro Leve Moderada Grave
Gradiente Médio (mmHg) < 2 2 - 5 > 5
Área Valvar (cm²) > 2.0 1.0 - 2.0 < 1.0
Pressure Half-Time (ms) < 70 70 - 120 > 120
Tempo de Desaceleração (ms) < 140 140 - 240 > 240
📖 Observações - Estenose Tricúspide
Causas principais:
• Doença reumática (causa mais comum) - quase sempre associada à EM
• Síndrome carcinoide
• Endocardite com vegetações grandes
• Congênita (atresia tricúspide)
• Tumores (mixoma atrial direito)
• Marcapasso/eletrodos endocárdicos

⚠️ Doença rara! Estenose tricúspide isolada é extremamente incomum. Quando presente, geralmente está associada a lesões valvares esquerdas, especialmente estenose mitral.

Sinais clínicos: Congestão venosa sistêmica (hepatomegalia, edema, ascite), onda "a" proeminente no pulso jugular, sopro diastólico aumentado com inspiração (sinal de Rivero-Carvallo).
⚠️ Estenose Tricúspide Grave
Tratamento:
• Diuréticos para congestão venosa
• Cirurgia (plastia ou troca valvar) indicada em pacientes sintomáticos, especialmente se já houver indicação de cirurgia para valvas esquerdas
• Valvuloplastia por balão raramente é opção (anatomia geralmente desfavorável)

Prognóstico: Depende principalmente das lesões valvares associadas e da função do VD.
💜 Classificação da Severidade da Insuficiência Pulmonar
Parâmetro Leve Moderada Grave
Largura do Jato
(% VSVE)
< 25% 25% - 50% > 50%
Vena Contracta (mm) < 6 6 - 9 > 9
Pressure Half-Time (ms) > 200 100 - 200 < 100
Tempo de Desaceleração (ms) > 400 200 - 400 < 200
Densidade do Jato (Doppler) Tênue Intermediária Densa
Fim de Diástole Sem fluxo
em tele-diástole
Fluxo presente Fluxo holodiastólico
+ encurtamento
📖 Parâmetros Explicados - Insuficiência Pulmonar
Largura do Jato: Razão entre a largura do jato no mapeamento de fluxo em cores e o diâmetro da via de saída do VD (VSVE).

Vena Contracta: Diâmetro da porção mais estreita do jato logo após a valva pulmonar.

Pressure Half-Time (PHT): Tempo para o gradiente diastólico cair pela metade. PHT curto indica regurgitação grave (equalização rápida das pressões).

Tempo de Desaceleração: Tempo de desaceleração do fluxo diastólico regurgitante. Quanto menor, mais grave.

Densidade do Jato: Jato denso ao Doppler contínuo sugere alta velocidade e grande volume regurgitante.

Fluxo Holodiastólico: Presença de fluxo regurgitante durante toda a diástole, incluindo tele-diástole, indica IP importante.
💡 Etiologia e Contexto Clínico - IP
Causas mais comuns:
• Hipertensão pulmonar (causa mais comum em adultos) - dilatação do anel
• Pós-cirurgia de Tetralogia de Fallot (correção com patch transanular)
• Endocardite infecciosa
• Síndrome carcinoide
• Doença reumática (rara, geralmente com lesões esquerdas)
• Dilatação idiopática da artéria pulmonar
• Congênita (ausência de folheto, valva bicúspide)

IP Fisiológica: Traço ou IP leve é comum em pessoas normais (até 70% dos adultos) e geralmente não tem significado clínico.

Importante: Em pacientes com Tetralogia de Fallot corrigida, IP grave crônica leva a dilatação progressiva do VD e deve ser monitorada de perto com RM cardíaca.
🚨 Insuficiência Pulmonar Grave
Indicações de Intervenção:
• IP grave sintomática (dispneia, arritmias, insuficiência cardíaca)
• Dilatação progressiva do ventrículo direito
• Disfunção do VD (FE < 45%)
• Arritmias ventriculares sustentadas
• Em pós-op de Tetralogia de Fallot: VD volume > 160-170 mL/m² ou FE VD < 45%

Opções terapêuticas:
• Troca valvar cirúrgica (biológica preferível)
• Implante percutâneo de valva pulmonar (PPVI - Melody, Sapien) em casos selecionados (VSVE nativa ou prótese pré-existente)
• Tratamento da causa de base (hipertensão pulmonar, endocardite)
💜 Classificação da Severidade da Estenose Pulmonar
Parâmetro Leve Moderada Grave
Velocidade Máxima (m/s) < 3.0 3.0 - 4.0 > 4.0
Gradiente de Pico (mmHg) < 36 36 - 64 > 64
Gradiente Médio (mmHg) < 25 25 - 40 > 40
Área Valvar (cm²) > 2.0 1.0 - 2.0 < 1.0
📖 Observações - Estenose Pulmonar
Tipos de Estenose Pulmonar:
• Valvar (90% dos casos) - fusão comissural, displasia
• Subvalvar (infundibular) - hipertrofia muscular da VSVE
• Supravalvar - estenose da artéria pulmonar ou de ramos pulmonares

Etiologia:
• Congênita (causa mais comum) - valva bicúspide, displásica
• Síndrome de Noonan (displasia valvar)
• Síndrome carcinoide
• Doença reumática (rara, quase sempre com lesões esquerdas)
• Pós-cirúrgica

Importante: A velocidade máxima é o parâmetro mais usado para classificação. Usar equação simplificada de Bernoulli: Gradiente = 4 × (Velocidade)².
⚠️ Estenose Pulmonar Grave
Indicações de Intervenção:
• EP grave sintomática (dispneia, fadiga, síncope, angina)
• EP grave assintomática com:
  - Gradiente de pico > 64 mmHg (ou > 60 mmHg em alguns guidelines)
  - Disfunção do ventrículo direito
  - Hipertrofia acentuada do VD
  - Insuficiência tricúspide significativa
  - Arritmias

Tratamento de escolha:
• Valvuloplastia pulmonar por balão (primeira linha para EP valvar típica)
  - Taxa de sucesso > 90%
  - Complicações baixas
  - Pode deixar IP residual leve-moderada (geralmente bem tolerada)

• Cirurgia (valvotomia ou ressecção infundibular) reservada para:
  - Anatomia desfavorável para balão (displasia grave, anel hipoplásico)
  - Componente subvalvar ou supravalvar importante
  - Falha da valvuloplastia por balão
✅ Prognóstico
Estenose Pulmonar tratada tem excelente prognóstico!

• Valvuloplastia por balão proporciona alívio duradouro na maioria dos casos
• Reestenose é rara (< 10%)
• Insuficiência pulmonar residual é comum, mas geralmente leve e bem tolerada
• Seguimento ecocardiográfico periódico é recomendado (a cada 1-3 anos)
• EP leve-moderada assintomática pode ser acompanhada clinicamente sem intervenção

Importante: Profilaxia de endocardite NÃO é mais recomendada para EP isolada (exceto em contexto de endocardite prévia ou prótese valvar).
🔧 Prótese Valvar Pulmonar — Tipos e Contexto Clínico
📌 Sobre Esta Seção (ASE 2024 — Seção IV)
Todos os critérios desta aba são da diretriz ASE 2024 de próteses valvares (Seção IV — Evaluation of Prosthetic Pulmonary Valves), o documento de referência específico para prótese em posição pulmonar. A valva pulmonar substituída nem sempre ocupa a posição da valva nativa — especialmente quando há conduto — por isso janelas off-axis (paraesternais modificadas, subcostal e supraesternal) são frequentemente necessárias.
Abordagem Tipo de valva / conduto Fabricante; tamanho (valva ou conduto)
Cirúrgica Homoenxerto (aórtico ou pulmonar criopreservado) Variedade de tamanhos
Condutos de xenoenxerto Medtronic Contegra 12-22 mm
Shelhigh 10-24 mm
Medtronic Freestyle 19-29 mm
Condutos sintéticos compostos com valva bioprotética/mecânica Carpentier-Edwards porcina 12-30 mm
Medtronic Hancock 12-26 mm
Confeccionados manualmente (vários tamanhos)
Biopróteses ou próteses mecânicas Variedade de tipos e tamanhos
Transcateter Dentro de conduto ou de bioprótese (valve-in-valve) Medtronic Melody 18 mm
Edwards SAPIEN 23-29 mm
Em via de saída nativa Medtronic Harmony 22 e 25 mm
Adaptado de: Zoghbi WA, Jone PN, et al. ASE Guidelines for the Evaluation of Prosthetic Valve Function With Cardiovascular Imaging. J Am Soc Echocardiogr 2024;37(1):2-63 — Tabela 14. DOI: 10.1016/j.echo.2023.10.004
📖 Por que a prótese foi implantada?
Conduto valvado: a indicação mais comum é a Tetralogia de Fallot. Outras: procedimento de Rastelli (TGA com CIV), cirurgia de Ross (estenose aórtica congênita) e reparo de Yasui (interrupção do arco aórtico com aorta ascendente diminuta).

Bioprótese com stent (sem conduto): geralmente implantada por insuficiência pulmonar, que é a lesão mais comum em quem já foi submetido a reconstrução da via de saída do VD.

Cirúrgica vs transcateter: os desfechos são favoráveis e comparáveis. A troca transcateter tem internação mais curta e menos complicações periprocedimento, porém maior taxa de endocardite.

Próteses mecânicas são raramente implantadas nesta posição — os dados sobre suas complicações são escassos. Quando presentes, tendem a apresentar velocidade de pico e gradiente médio menores que as biológicas em posição pulmonar.
📊 Valores de Referência e Critérios de Obstrução Protética
⚠️ Estenose é a forma dominante de falha
A disfunção da prótese pulmonar manifesta-se predominantemente como estenose, não como regurgitação, com incidência de aproximadamente 80% em 10 anos do implante inicial. Na endocardite de prótese ou conduto pulmonar, a obstrução também é mais frequente que a regurgitação grave ao diagnóstico (53% vs 29%).
Categoria Normal Possível obstrução
Qualitativo Estrutura e motilidade valvares normais
Fluxo laminar
Estrutura e motilidade valvares anormais
Usar PW para determinar o local da estenose
Turbulência aumentada ao Doppler colorido com jato estreito
Velocidade máxima < 3,2 m/s — bioprótese
< 2,5 m/s — homoenxerto
≥ 3,2 m/s — bioprótese
≥ 2,5 m/s — homoenxerto
Gradiente médio < 20 mmHg — bioprótese
< 15 mmHg — homoenxerto
≥ 20 mmHg — bioprótese
≥ 15 mmHg — homoenxerto
Comparação seriada
com o exame basal
Gradientes de pico/médio e Vmáx estáveis
Pressão sistólica do VD sem alteração
Tamanho e função sistólica do VD sem alteração
DVI sem alteração
Gradientes de pico/médio e Vmáx aumentados
Pressão sistólica do VD aumentada
VD dilatado com queda da função sistólica
DVI reduzido
Zoghbi WA, Jone PN, et al. ASE Guidelines for the Evaluation of Prosthetic Valve Function With Cardiovascular Imaging. J Am Soc Echocardiogr 2024;37(1):2-63 — Tabela 15. DOI: 10.1016/j.echo.2023.10.004
🚨 Duas ressalvas que mudam a interpretação
1. As medidas assumem volume sistólico do VD normal. Em alto débito o gradiente superestima a obstrução; em baixo débito (disfunção do VD) o gradiente subestima. Sempre integrar com o DVI e a comparação seriada.

2. Velocidade alta nem sempre é a prótese. Estenose de ramo pulmonar ou estenose na borda do conduto podem gerar velocidades altas e contaminar o Doppler contínuo. O Doppler pulsado é indispensável para localizar o nível exato da obstrução (subvalvar / valvar / conduto / tronco / ramos).
📐 Valores normais por tipo e tamanho de prótese
Referência para o "fingerprint" hemodinâmico — sempre que possível compare com o ecocardiograma basal do próprio paciente, feito logo após o implante.
Prótese Tamanho (mm) Grad. médio Vmáx TA (ms) AOE (cm²)
Homoenxerto — < 15 mmHg < 2,5 m/s — —
Condutos valvados
Contegra 12-22 · Shelhigh 10-24 · Medtronic 19-29
— < 15 mmHg < 2,2 m/s — —
Biopróteses — < 15 mmHg < 2,2 m/s — —
Melody (percutânea) 16 (≤20)
18 (≤22)
— < 2,4 m/s — —
SAPIEN (percutânea) 20
23
26
29
16 ± 5
11 (8-17)
9,5 (4,9-14,5)
10,4 (5,9-15,5)
— — 1,22 ± 0,2
1,47 (1,1-2)
1,77 (1,3-2,4)
2,0 (1,5-2,6)
Via de saída nativa
Alterra + SAPIEN · Harmony
— Sem dados publicados
Mecânica St. Jude 21-31 6-12 mmHg 1,6-2,2 m/s 83-98 1,73-5,73
Mecânica Carbomedics 23-29 7-12 mmHg 1,7-2,0 m/s 76-89 1,7-4,1
Mecânica On-X 23-29 10-13 mmHg 1,8-2,2 m/s 100-113 1,5-2,4
TA = tempo de aceleração da prótese; AOE = área de orifício efetiva. Dados expressos como média ± DP ou mediana (IIQ). Nas próteses mecânicas os valores são a faixa entre os tamanhos disponíveis na fonte.
Zoghbi WA, Jone PN, et al. J Am Soc Echocardiogr 2024;37(1):2-63 — Apêndice, Tabela A7. DOI: 10.1016/j.echo.2023.10.004
💧 Severidade da Regurgitação Pulmonar Protética
⚠️ Escassez de dados — critérios extrapolados
A própria diretriz declara: "há escassez de dados avaliando especificamente a regurgitação pulmonar em próteses; portanto, a informação disponível é extrapolada da avaliação da IP em valvas nativas". Use esta tabela como guia integrado, não como corte isolado. Para a valva pulmonar nativa, veja a tabela na aba Valva Pulmonar.
Parâmetro Leve Moderada Grave
Estrutura valvar Geralmente normal Anormal ou deiscência valvar Anormal ou deiscência valvar
Tamanho do VD Normal* Normal ou dilatado* Dilatado ou dilatação progressiva†
Tamanho do jato ao
Doppler colorido
(jatos centrais)‡
Fino, com origem estreita;
largura ≤ 25% do anel pulmonar
Intermediário;
largura 26%-50% do anel pulmonar
Geralmente largo, com origem ampla;
largura > 50% do anel pulmonar;
pode ser breve em duração
Densidade do jato
ao Doppler contínuo
Incompleto ou tênue Denso Denso
Taxa de desaceleração
do jato ao Doppler contínuo
Desaceleração lenta Desaceleração variável Desaceleração íngreme§,
término precoce do fluxo diastólico
Fluxo sistólico pulmonar
vs fluxo sistêmico ao PW
Levemente aumentado Intermediário Muito aumentado
Reversão de fluxo diastólico
no tronco distal da AP
Ausente Presente Presente
Zoghbi WA, Jone PN, et al. ASE Guidelines for the Evaluation of Prosthetic Valve Function With Cardiovascular Imaging. J Am Soc Echocardiogr 2024;37(1):2-63 — Tabela 16 (adaptada de Zoghbi et al. 2017). DOI: 10.1016/j.echo.2023.10.004
📖 Notas de rodapé da tabela (essenciais para não errar)
* VD normal salvo outra causa de dilatação, incluindo dilatação residual pós-cirúrgica — muito comum nesta população.

† Salvo outra razão para VD aumentado de base. IP aguda é exceção (VD ainda não teve tempo de dilatar). A sobrecarga de volume do VD costuma vir acompanhada de movimento septal paradoxal típico.

‡ Avaliado com limite de Nyquist 50-60 cm/s. O parâmetro aplica-se a jatos centrais — não a jatos excêntricos nem paravalvares.

§ Desaceleração íngreme não é específica de IP grave: também ocorre na disfunção diastólica grave do VD.

Os valores de corte para volume e fração regurgitante não são bem validados nesta posição.
🔬 Parâmetros quantitativos complementares
Armadilha visual: a IP grave tem jato de curta duração, porque as pressões diastólicas da AP e do VD se equalizam rapidamente — isso torna a IP grave visualmente pouco impressionante ao color. Não subestime por causa do jato curto.

Largura do jato > 50% do anel da prótese sugere IP grave. Menos confiável em regurgitação excêntrica e paravalvar.

Reversão de fluxo ao PW no tronco distal da AP sugere IP pelo menos moderada.

PHT < 95 ms e slope > 4,9 m/s²: em estudo comparando RM cardíaca com ecocardiografia, indicaram necessidade de intervenção na valva pulmonar.

Fração regurgitante (comparando o volume sistólico logo abaixo da prótese com o volume sistólico aórtico ou mitral, na ausência de IAo ou IM): < 30% leve e > 50% grave.

Fração regurgitante por RM cardíaca (método superior à eco para quantificar IP): < 26% leve, 26%-35% moderada, > 35% grave.
ASE 2024, Seção IV.C (pp. 35-36). PHT/slope: Dellas C, Kammerer L, Gravenhorst V, et al. Fração regurgitante por RM: Lotz J, Sohns JM. DOI da diretriz: 10.1016/j.echo.2023.10.004
📝 Como Avaliar e o Que Reportar — Prótese Pulmonar
⚠️ Pontos-Chave (ASE 2024)
1. Avaliar uma prótese pulmonar exige saber que tipo de valva ou conduto valvado foi implantado — sem isso não há como escolher o valor de referência correto.

2. A avaliação ecocardiográfica pode exigir janelas off-axis, não convencionais.

3. Velocidade de pico e gradiente médio derivados do Doppler — e o DVI quando factível — devem ser medidos e reportados.

4. Para a regurgitação, são necessários o mapeamento de fluxo em cores e o registro espectral do jato, com atenção à sua intensidade e inclinação (slope).

5. TC e RM cardíaca delineiam melhor a prótese pulmonar quanto a trombo e calcificação. A RM é particularmente útil na quantificação da IP.

6. Há escassez de dados sobre IP protética — a informação disponível é majoritariamente extrapolada de valvas nativas.
Zoghbi WA, Jone PN, et al. J Am Soc Echocardiogr 2024;37(1):2-63 — Key Points for Assessing Prosthetic Pulmonary Valves and Conduits (p. 36).
🚨 PSAP na presença de obstrução protética
Quando existe estenose da prótese pulmonar, a pressão sistólica da artéria pulmonar não é igual à pressão sistólica do VD:

PSAP = PSVD − gradiente através da prótese obstruída

A PSVD é obtida pelo jato de insuficiência tricúspide, quando presente. Ignorar essa subtração superestima a PSAP e pode gerar diagnóstico falso de hipertensão pulmonar.
💡 Checklist para o Laudo
Identificação da prótese:
• Tipo (homoenxerto, conduto, bioprótese, mecânica, transcateter) e tamanho
• Data do implante e indicação cirúrgica original (Fallot, Ross, Rastelli…)
• Comparação com o ecocardiograma basal pós-implante, se disponível

Anatomia:
• Estrutura e motilidade dos folhetos / oclusor
• Presença de trombo, pannus, vegetação, calcificação
• Estabilidade da prótese / deiscência
• Anatomia da VSVD, do tronco e dos ramos da AP

Doppler:
• Velocidade máxima e gradiente médio (usar múltiplas janelas, incluindo off-axis)
• DVI, quando factível
• PW ao longo da VSVD, conduto, tronco e ramos para localizar o nível da obstrução
• Presença, largura, densidade e slope do jato de IP
• Reversão de fluxo diastólico no tronco distal da AP

Repercussão:
• Tamanho e função sistólica do VD (e dilatação progressiva em exames seriados)
• Movimento septal paradoxal (sobrecarga de volume)
• PSVD pelo jato de IT e PSAP corrigida pelo gradiente protético
• Átrio direito, veia cava inferior e fluxo em veias hepáticas

Quando indicar outro método:
• RM cardíaca — quantificar IP (fração regurgitante), volumes e função do VD
• TC — calcificação, trombo vs pannus, dimensionar conduto, planejar intervenção percutânea, e quando o artefato de stent impede a RM
• ETE / ICE — suspeita de endocardite e melhor visualização do conduto
🫁 Probabilidade Ecocardiográfica de Hipertensão Pulmonar
✅ Baixa Probabilidade de HP
Velocidade de pico da IT ≤ 2,8 m/s
PSAP ≤ 36 mmHg (assumindo PAD de 5 mmHg)

→ Sem outros sinais ecocardiográficos de HP
⚠️ Intermediária Probabilidade de HP
Opção 1:
Velocidade de pico da IT entre 2,9 e 3,4 m/s
PSAP entre 37 e 50 mmHg (PAD: 5 mmHg)
→ Sem outros sinais ecocardiográficos de HP

Opção 2:
Velocidade de pico da IT ≤ 2,8 m/s
PSAP ≤ 36 mmHg (PAD: 5 mmHg)
→ Com sinais ecocardiográficos adicionais de HP
🔴 Alta Probabilidade de HP
Opção 1:
Velocidade de pico da IT entre 2,9 e 3,4 m/s
PSAP entre 37 e 50 mmHg (PAD: 5 mmHg)
→ Com sinais ecocardiográficos de HP

Opção 2:
Velocidade de pico da IT > 3,4 m/s
PSAP > 50 mmHg (PAD: 5 mmHg)
→ Independente de sinais ecocardiográficos adicionais
📋 Sinais Ecocardiográficos Adicionais Sugestivos de HP
A: Ventrículos B: Artéria Pulmonar C: VCI e AD
• Relação diâmetro basal VD/VE > 1,0

• Achatamento do septo interventricular (LVEI > 1,1 em sístole e/ou diástole)

• Relação TAPSE/PSAP < 0,55 mm/mmHg
• TSVD AT < 105 ms e/ou notching mesossistólico

• Velocidade diastólica inicial da IP > 2,2 m/s

• Diâmetro da AP > diâmetro da raiz aórtica

• Diâmetro da AP > 25 mm
• Diâmetro da VCI > 21 mm com colapso inspiratório reduzido (< 50% com sniff ou < 20% com respiração tranquila)

• Área do AD (telessístole) > 18 cm²
📚 Referências:

1. Humbert M, Kovacs G, Hoeper MM, et al. 2022 ESC/ERS Guidelines for the diagnosis and treatment of pulmonary hypertension. Eur Heart J. 2022;43(38):3618-3731. doi: 10.1093/eurheartj/ehac237

2. Galiè N, Humbert M, Vachiery JL, et al. 2015 ESC/ERS Guidelines for the diagnosis and treatment of pulmonary hypertension. Eur Heart J. 2016;37(1):67-119. doi: 10.1093/eurheartj/ehv317

3. Bossone E, D'Andrea A, D'Alto M, et al. Echocardiography in pulmonary arterial hypertension: from diagnosis to prognosis. J Am Soc Echocardiogr. 2013;26(1):1-14. doi: 10.1016/j.echo.2012.10.009
📝 Considerações Gerais sobre Valvas Direitas
⚠️ Pontos Importantes
1. Avaliação multiparamétrica: Assim como nas valvas esquerdas, use múltiplos parâmetros para classificação. Nenhum parâmetro isolado é perfeito.

2. Influência respiratória: O fluxo através das valvas direitas aumenta com a inspiração (aumento do retorno venoso). Isso pode alterar gradientes e áreas de jato. O sinal de Rivero-Carvallo (aumento do sopro com inspiração) é característico de lesões do lado direito.

3. Dependência do VD: A função do ventrículo direito é fundamental na avaliação. Dilatação e disfunção do VD são critérios importantes para decisão cirúrgica.

4. Hipertensão pulmonar: Sempre avaliar a pressão sistólica da artéria pulmonar (PSAP) pelo jato de regurgitação tricúspide. A hipertensão pulmonar influencia gravidade e prognóstico.

5. Lesões associadas: IT e IP secundárias são comuns em contexto de lesões valvares esquerdas ou hipertensão pulmonar. Sempre avaliar todo o aparelho valvar.

6. Congênitas vs Adquiridas: Lesões do lado direito são mais frequentemente congênitas (especialmente EP). História clínica é fundamental!

7. Imagem complementar: Ressonância magnética cardíaca é excelente para avaliar VD (volumes, massa, função) e é considerada padrão-ouro, especialmente em cardiopatias congênitas.

8. Endocardite do lado direito: Mais comum em usuários de drogas IV. IT por endocardite geralmente envolve o folheto anterior (mais vascularizado).
💡 Dicas para o Laudo Ecocardiográfico
Para Insuficiência Tricúspide:
• Sempre estimar a PSAP (fundamental para contexto clínico)
• Descrever mecanismo (primária vs secundária)
• Medir diâmetro do anel tricúspide (importante para decisão cirúrgica)
• Avaliar tamanho e função do VD
• Documentar sinais de hipertensão pulmonar
• Avaliar veias cavas e hepáticas (congestão sistêmica)

Para Estenose Pulmonar:
• Reportar velocidade máxima E gradiente de pico (principais parâmetros)
• Diferenciar nível da obstrução (valvar, subvalvar, supravalvar)
• Descrever anatomia valvar (útil para planejamento de valvuloplastia)
• Avaliar função e hipertrofia do VD
• Pesquisar IP associada
• Avaliar artéria pulmonar e ramos (dilatação pós-estenótica, estenoses de ramos)

Sempre mencionar:
• Função do ventrículo direito (qualitativa: normal, redução leve/moderada/grave)
• Tamanho do VD (normal, levemente/moderadamente/gravemente dilatado)
• PSAP estimada (se houver jato de IT mensurável)
• Átrio direito (tamanho, congestão venosa)