📌 Sobre Esta Classificação (Hahn & Zamorano 2017 / ASE 2023)
Esta escala expandida de 5 níveis permite uma estratificação mais precisa da regurgitação grave, sendo essencial para a avaliação de pacientes candidatos a intervenções transcateter (ex: TriClip, FORMA, PASCAL). A categoria "Grave" convencional foi subdividida para melhor identificar pacientes com regurgitação maciça ou torrencial.
| Grau de Severidade |
| Leve |
< 3 |
< 20 |
< 20 |
| Moderada |
3 – 6,9 |
20 – 39 |
20 – 44 |
| Grave (Severe) |
7 – 13 |
40 – 74 |
45 – 74 |
| Massiva (Massive) |
14 – 20 |
75 – 94 |
75 – 94 |
| Torrencial (Torrential) |
≥ 21 |
≥ 95 |
≥ 95 |
🚨 Refluxo Torrencial: Critérios Clínicos
O refluxo torrencial é caracterizado por:
• Ausência total de coaptação dos folhetos ("coaptation gap")
• Inversão de fluxo sistólico nas veias hepáticas de forma muito proeminente
• Geralmente associado a dilatação massiva do anel tricúspide
• Candidatos prioritários para intervenção (cirúrgica ou percutânea)
📖 Parâmetros Explicados
Vena Contracta: Diâmetro mais estreito do jato regurgitante (em mm). É o parâmetro mais reprodutível
e menos dependente de condições hemodinâmicas. Medido em zoom na origem do jato, no plano apical 4 câmaras.
EROA (Effective Regurgitant Orifice Area): Área efetiva do orifício regurgitante (em mm²)
calculada pelo método PISA (Proximal Isovelocity Surface Area). Padrão-ouro para quantificação objetiva da IT.
Volume Regurgitante: Volume de sangue (em mL) que retorna ao átrio direito a cada batimento.
Calculado pela fórmula: Vol Regurgitante = EROA × VTI do jato regurgitante.
⚠️ Importante: A nova classificação utiliza valores mais refinados que as diretrizes anteriores,
permitindo melhor seleção de pacientes para terapias percutâneas (TriClip, FORMA, PASCAL, etc.).
⚠️ Nota Técnica sobre o PISA
Embora o método PISA possa subestimar a IT em alguns casos (especialmente em jatos excêntricos ou múltiplos),
os valores apresentados nesta tabela seguem os números validados internacionalmente por Hahn & Zamorano (2017)
e confirmados pela ASE 2023.
Na prática clínica, alguns médicos podem utilizar valores menores como referência, mas para fins de padronização
e comparação entre serviços, recomendamos seguir estritamente estes critérios oficiais, que foram validados
especificamente para seleção de candidatos a intervenções transcateter.
📚 Fontes e Referências Bibliográficas
Hahn RT, Zamorano JL. The need for a new tricuspid regurgitation grading scheme.
European Heart Journal - Cardiovascular Imaging. 2017 Dec 1;
18(12):1342-1343.
DOI:
10.1093/ehjci/jex139
Zoghbi WA, et al. Recommendations for Noninvasive Evaluation of Native Valvular Regurgitation:
A Report from the American Society of Echocardiography.
J Am Soc Echocardiogr. 2023.
🩺 Indicações de Intervenção (IT Grave, Massiva ou Torrencial)
Indicações de Cirurgia/Intervenção:
• IT ≥ Grave sintomática (edema, ascite, fadiga, ICC direita)
• IT ≥ Grave durante cirurgia valvar esquerda concomitante
• Dilatação progressiva do ventrículo direito
• Disfunção do ventrículo direito (TAPSE < 17mm, S' < 9,5 cm/s)
• Dilatação do anel tricúspide (≥ 40 mm ou ≥ 21 mm/m²)
• IT Massiva ou Torrencial: considerar intervenção mesmo se assintomático
Opções Terapêuticas:
Cirúrgicas (preferência em pacientes candidatos):
• Anuloplastia com anel protético (técnica de escolha)
• Plastia tricúspide (reparação dos folhetos)
• Troca valvar (biológica preferível em IT primária/estrutural)
Percutâneas (alto risco cirúrgico ou recidiva pós-cirurgia):
• TriClip/PASCAL (clipe borda-a-borda - equivalente ao MitraClip)
• Cardioband (anuloplastia percutânea)
• FORMA (espaçador no seio coronário para redução do anel)
• Troca valvar transcateter (TTVI - em desenvolvimento)
💡 Classificação por Mecanismo - IT
IT Primária (Orgânica):
• Doença reumática
• Endocardite infecciosa (especialmente em usuários de drogas IV)
• Prolapso/Flail (degeneração mixomatosa, sd. Marfan)
• Carcinóide
• Congênita (Ebstein, displasia)
• Medicamentosa (fenfluramina, pergolida)
IT Secundária (Funcional): ⚠️ Mais comum!
• Dilatação do anel (hipertensão pulmonar, ICC)
• Disfunção do VD (isquemia, cardiomiopatia)
• Sobrecarga de volume (defeitos septais, FA)
• Tração dos folhetos por dilatação do VD
Importante: IT secundária representa > 80% dos casos. Tratar a causa de base!
📌 Sobre Esta Classificação Funcional
A Classificação de Carpentier descreve o mecanismo da IT baseado no movimento dos folhetos valvares,
sendo essencial para o planejamento cirúrgico (plastia vs troca) e para a seleção de candidatos
a reparo percutâneo (TriClip funciona melhor em Tipo I e IIIb).
🟢 Tipo I - Movimento Normal
Característica:
Folhetos se movem normalmente, mas há dilatação do anel tricúspide
que impede a coaptação completa.
Causas Principais:
• IT funcional (dilatação VD/anel)
• Hipertensão pulmonar
• Insuficiência cardíaca
• Fibrilação atrial crônica
💡 Mais comum: Representa > 80% dos casos de IT!
🔧 Tratamento: Anuloplastia (anel rígido ou semirrígido)
🟡 Tipo II - Movimento Excessivo
Característica:
Prolapso ou flail de um ou mais folhetos, com movimento
excessivo que ultrapassa o plano do anel.
Causas Principais:
• Degeneração mixomatosa
• Endocardite (ruptura de cordas)
• Trauma cardíaco
• Síndrome de Marfan
• Ruptura de músculo papilar
⚠️ Endocardite: Geralmente afeta o folheto anterior (mais vascularizado)
🔧 Tratamento: Plastia de folhetos ou ressecção + anuloplastia
🔴 Tipo IIIa - Restrição Sístole + Diástole
Característica:
Movimento restrito dos folhetos em sístole E diástole,
com abertura e fechamento limitados.
Causas Principais:
• Doença reumática
• Síndrome carcinóide
• Doença de Ebstein
• Medicamentosa (fenfluramina)
• Fibrose/calcificação
📋 Ebstein: Displasia + deslocamento apical da tricúspide (folheto septal)
🔧 Tratamento: Troca valvar (plastia geralmente não é possível)
🟣 Tipo IIIb - Restrição Apenas Sistólica
Característica:
Movimento restrito apenas na sístole (abertura normal,
fechamento limitado), devido a tração/tethering.
Causas Principais:
• Dilatação do VD (tração)
• Infarto VD (disfunção papilar)
• Cardiomiopatia dilatada
• Hipertensão pulmonar grave
🎯 TriClip: Funciona bem em IIIb! Reduz gap de coaptação.
🔧 Tratamento: Anuloplastia + tratamento da causa (VD)
🎯 Importância Clínica da Classificação de Carpentier
1. Planejamento Cirúrgico:
• Tipo I e IIIb: Candidatos ideais para plastia com anuloplastia
• Tipo II: Pode exigir ressecção ou transferência de cordas
• Tipo IIIa: Geralmente requer troca valvar (plastia difícil)
2. Seleção para Reparo Percutâneo (TriClip/PASCAL):
• ✅ Melhor resultado: Tipo I (dilatação do anel) e Tipo IIIb (tethering)
• ⚠️ Resultado variável: Tipo II (prolapso - depende da anatomia)
• ❌ Contraindicado: Tipo IIIa (folhetos rígidos/fibróticos)
3. Laudo Ecocardiográfico:
• Sempre descrever o mecanismo da IT (Carpentier)
• Avaliar mobilidade dos folhetos (normal, excessiva, restrita)
• Medir diâmetro do anel tricúspide (≥ 40 mm = dilatado)
• Avaliar coaptação (gap de coaptação sugere tethering - IIIb)
📝 Exemplo de Texto para Laudo
"Insuficiência tricúspide moderada a grave (vena contracta = 8 mm, EROA = 50 mm²),
mecanismo Carpentier Tipo I
(movimento normal dos folhetos com dilatação do anel tricúspide medindo 42 mm),
associada a dilatação importante do ventrículo direito (área diastólica = 28 cm²) e
hipertensão pulmonar moderada (PSAP = 55 mmHg). Ausência de coaptação central (gap de coaptação = 5 mm).
Refluxo sistólico moderado nas veias hepáticas ao Doppler pulsado."
💡 Este formato ajuda o cirurgião a planejar a técnica (anuloplastia rígida,
possivelmente associada a redução do VD), e também indica candidato potencial para TriClip caso
o risco cirúrgico seja elevado.