A Persistência do Canal Arterial (PCA), também conhecida como Persistência do Ductus Arteriosus (PDA), é uma cardiopatia congênita caracterizada pela falha no fechamento do canal arterial após o nascimento.
O canal arterial é uma estrutura vascular normal durante a vida fetal, conectando a artéria pulmonar à aorta descendente, permitindo desvio (shunt) do sangue da circulação pulmonar. Normalmente, fecha-se nas primeiras 48-72 horas de vida.
💡 Vídeo demonstrativo mostrando a anatomia e o fluxo sanguíneo característico da Persistência do Canal Arterial
| Classificação | Diâmetro no Estreitamento | Repercussão Hemodinâmica |
|---|---|---|
| PCA Pequena | < 2,5 mm | Mínima ou ausente |
| PCA Moderada | 2,5 - 4,0 mm | Dilatação leve de AE/VE |
| PCA Grande | > 4,0 mm | Sobrecarga importante de volume |
| Tipo | Descrição | Frequência |
|---|---|---|
| Tipo A | Cônico, afunilamento do lado aórtico | ~50% |
| Tipo B | Janela, curto e amplo | ~12% |
| Tipo C | Tubular, diâmetro uniforme | ~22% |
| Tipo D | Complexo, múltiplas constrições | ~8% |
| Tipo E | Elongado, tortuoso | ~8% |
| Parâmetro | Como Medir | Significado |
|---|---|---|
| Diâmetro do PCA | Menor diâmetro interno (modo 2D) | Define magnitude do shunt |
| Qp/Qs | Relação fluxo pulmonar/sistêmico | > 1,5:1 = shunt significativo |
| Diâmetro AE | Modo M ou 2D (indexado) | Sobrecarga de volume |
| Relação AE/Ao | Diâmetro AE / Diâmetro Ao | > 1,3 = sobrecarga |
| DDVE/DSVE | Diâmetros diastólico/sistólico VE | Remodelamento do VE |
| Vel. Máxima Doppler | Doppler contínuo no canal | Estima gradiente Ao-AP |
| PSAP | Via jato de IT + PVC | Avalia hipertensão pulmonar |
| Método | Indicação | Vantagens | Limitações |
|---|---|---|---|
| Percutâneo (Dispositivos) |
PCA tipo A, B, C Peso > 5 kg |
• Menos invasivo • Recuperação rápida • Alta taxa de sucesso |
• Anatomia favorável • Tamanho adequado • Custo do dispositivo |
| Cirúrgico (Ligadura) |
PCA grande Prematuros Anatomia complexa |
• Efetivo em todos tipos • Prematuros • Baixo custo |
• Toracotomia • Tempo recuperação • Risco cirúrgico |
| Farmacológico (Ibuprofeno/Indometacina) |
Prematuros < 2 semanas PCA hemodinâmica |
• Não invasivo • Evita cirurgia • Baixo custo |
• Só em prematuros • Taxa falha 30-40% • Contraindicações |
| Situação | Frequência | Avaliações |
|---|---|---|
| PCA Pequena (Sem fechamento) |
Anual | • ECO completo • Avaliação de hipertensão pulmonar • Função ventricular |
| Pós-Fechamento (Percutâneo) |
1, 6, 12 meses Depois anual |
• ECO com Doppler colorido • Shunt residual • Função de dispositivo |
| Pós-Fechamento (Cirúrgico) |
6, 12 meses Depois anual |
• ECO para shunt residual • Função ventricular • PSAP |
| PCA com HP (Não operável) |
Semestral | • ECO + Cateterismo • Teste de vasodilatação • Terapia para HP |
A Comunicação Interventricular (CIV) é a cardiopatia congênita mais comum (30-40% das malformações cardíacas), caracterizada por uma abertura anormal no septo interventricular, permitindo comunicação entre ventrículo direito e esquerdo.
| Tipo | Localização | Características | Frequência |
|---|---|---|---|
| Perimembranosa | Septo membranoso | Próxima à valva tricúspide e aórtica | 70-80% |
| Muscular | Septo muscular | Pode ser única ou múltipla ("queijo suíço") | 15-20% |
| Subarterial/Infundibular | Abaixo das valvas semilunares | Risco de prolapso valvar aórtico | 5-7% |
| Via de Entrada | Próxima às valvas AV | Associada a defeitos de septo AV | 5-8% |
| Tamanho | Diâmetro | Qp/Qs | Repercussão |
|---|---|---|---|
| Pequena (Restritiva) | < 0,5 cm/m² | < 1,5:1 | Sem sobrecarga, PA pulmonar normal |
| Moderada | 0,5 - 1,0 cm/m² | 1,5-2,2:1 | Sobrecarga leve, PSAP 30-50 mmHg |
| Grande (Não-restritiva) | > 1,0 cm/m² | > 2,2:1 | Sobrecarga importante, hipertensão pulmonar |
A Comunicação Interatrial (CIA) é um defeito no septo atrial que permite passagem anormal de sangue entre os átrios direito e esquerdo. É uma das cardiopatias congênitas mais comuns em adultos (25-30%).
| Tipo | Localização | Características | Frequência |
|---|---|---|---|
| Ostium Secundum | Fossa ovalis (centro do septo) | Mais comum, favorável para fechamento percutâneo | 70-75% |
| Ostium Primum | Porção inferior do septo | Associada a anomalias valvares AV | 15-20% |
| Seio Venoso | Junção VCS/AD ou VCI/AD | Frequentemente com drenagem anômala de VP | 5-10% |
| Seio Coronário | Descompressão do seio coronário | Rara, pode ter veia cava superior esquerda | < 1% |
| Parâmetro | Como Avaliar | Significado Clínico |
|---|---|---|
| Diâmetro da CIA | 2D: maior diâmetro em múltiplas janelas | Determina estratégia de fechamento |
| Bordas do defeito | Medir distância até estruturas (Ao, VCS, VCI, MV) | > 5mm necessário para dispositivo |
| Direção do shunt | Doppler colorido | E→D (habitual) ou D→E (Eisenmenger) |
| Qp/Qs | Fluxo pulmonar / fluxo sistêmico | > 1,5:1 indica shunt significativo |
| Tamanho VD | Diâmetro basal VD | Dilatação indica sobrecarga |
| PSAP | Via jato IT + PVC | Detecta hipertensão pulmonar |
A Coarctação da Aorta é um estreitamento localizado da aorta, geralmente na região do istmo aórtico (logo após a artéria subclávia esquerda). Representa 6-8% das cardiopatias congênitas.
| Tipo | Localização | Apresentação |
|---|---|---|
| Pré-ductal | Proximal ao PCA | Neonatal, geralmente sintomática precoce |
| Justa-ductal | No nível do PCA | Mais comum |
| Pós-ductal | Distal ao PCA | Adultos, circulação colateral desenvolvida |
| Gravidade | Velocidade Pico | Gradiente Pico | Gradiente Médio |
|---|---|---|---|
| Leve | 2,5 - 3,0 m/s | < 20 mmHg | < 10 mmHg |
| Moderada | 3,0 - 4,0 m/s | 20 - 40 mmHg | 10 - 25 mmHg |
| Grave | > 4,0 m/s | > 40 mmHg | > 25 mmHg |
A Tetralogia de Fallot (T4F) é a cardiopatia congênita cianótica mais comum após o primeiro ano de vida (5-7% das cardiopatias). Caracteriza-se por 4 componentes anatômicos fundamentais.
| Componente | Descrição | Consequência |
|---|---|---|
| 1. CIV Grande | Não restritiva, subarterial | Equalização de pressões entre VE e VD |
| 2. Obstrução VSVE | Estenose infundibular, valvar ou supravalvar pulmonar | Determina grau de cianose (quanto maior, mais cianose) |
| 3. Cavalgamento da Aorta | Aorta "caval" sobre o septo interventricular (> 50%) | Recebe sangue de ambos os ventrículos |
| 4. Hipertrofia VD | Secundária à obstrução da VSVE e sistêmica | Sobrecarga de pressão crônica |
| Tipo | Anatomia | Clínica |
|---|---|---|
| T4F Clássica | Estenose pulmonar moderada/grave | Cianose progressiva |
| T4F "Pink" | Estenose pulmonar leve | Pouca ou sem cianose inicial, shunt E→D |
| T4F com Atresia Pulmonar | Obstrução completa VSVE | Cianose grave, ductus-dependente |
A Transposição das Grandes Artérias (TGA) é uma cardiopatia cianótica grave onde a aorta nasce do ventrículo direito e a artéria pulmonar do ventrículo esquerdo, criando duas circulações paralelas incompatíveis com a vida sem comunicação entre elas.
| Tipo | Anatomia | Incidência |
|---|---|---|
| TGA Simples (D-TGA) | Septo íntegro, sem outras malformações | 60% |
| TGA + CIV | Comunicação interventricular associada | 30-35% |
| TGA + CIV + EP | CIV + estenose pulmonar | 5-10% |
| Cirurgia | Idade | Descrição |
|---|---|---|
| Switch Arterial (Jatene) | 1ª-2ª semana | Correção anatômica: Troca as grandes artérias + reimplante coronárias |
| Rastelli | Após 6 meses | Para TGA + CIV + EP: Túnel VE→Ao, conduto VD→AP |
| Switch Atrial (Senning/Mustard) | Histórico | Correção fisiológica (raramente usada hoje) |
A Estenose Pulmonar Congênita é uma obstrução à via de saída do ventrículo direito, podendo ser valvar (mais comum - 80%), subvalvar (infundibular) ou supravalvar. Representa 8-10% das cardiopatias congênitas.
| Tipo | Características | Frequência |
|---|---|---|
| Valvar | Fusão comissural, valva em "cúpula", bicúspide, displásica | 80-90% |
| Subvalvar (Infundibular) | Obstrução muscular ou fibrosa da VSVD | 10-15% |
| Supravalvar | Estenose do tronco ou ramos da artéria pulmonar | 2-3% |
| Combinada | Múltiplos níveis de obstrução | Variável |
| Gravidade | Velocidade Pico | Gradiente Pico | Gradiente Médio |
|---|---|---|---|
| Leve | < 3 m/s | < 36 mmHg | < 25 mmHg |
| Moderada | 3 - 4 m/s | 36 - 64 mmHg | 25 - 40 mmHg |
| Grave | > 4 m/s | > 64 mmHg | > 40 mmHg |
| Crítica | Variável | > 80 mmHg | > 50 mmHg |
A Anomalia de Ebstein é uma malformação congênita rara (<1% das cardiopatias congênitas) caracterizada pelo deslocamento apical da valva tricúspide para dentro do ventrículo direito. Isso resulta em "atrialização" de uma porção do VD (VD atrial) e um VD funcional pequeno. A gravidade varia de formas leves descobertas na idade adulta até apresentações neonatais graves com cianose e insuficiência cardíaca.
| Tipo | Características | Gravidade |
|---|---|---|
| Tipo A | VD funcional adequado; folheto anterior móvel | Leve |
| Tipo B | VD atrializado grande; VD funcional pequeno mas contrátil | Moderada |
| Tipo C | Folheto anterior com mobilidade restrita; VD funcional muito pequeno | Grave |
| Tipo D | Atrialização quase completa do VD; "saco tricúspide" | Muito Grave |
| Grau | Índice | Mortalidade Neonatal |
|---|---|---|
| Grau 1 | < 0,5 | 0% |
| Grau 2 | 0,5 - 0,99 | 10% |
| Grau 3 | 1,0 - 1,49 | 44% |
| Grau 4 | ≥ 1,5 | 100% |
Índice = (Área AD + Área VD atrializado) / (Área VD funcional + Área AE + Área VE) — medido em diástole
| Abordagem | Indicações | Observações |
|---|---|---|
| Clínico | Assintomáticos ou sintomas leves | Seguimento ecocardiográfico; controle de arritmias; diuréticos se IC |
| Reparo (Cone) | Sintomáticos com anatomia favorável (Tipos A/B) | Técnica de Cone: reconstrução em cone usando tecido valvar nativo |
| Troca Valvar | Falha do reparo; anatomia desfavorável | Bioprótese preferida (evitar anticoagulação) |
| Univentricular / Transplante | Neonatos graves; VD não funcionante | Via única ou transplante cardíaco como opção final |
O Forame Oval Patente (FOP) é uma comunicação interatrial residual resultante da falha de fusão do septum primum com o septum secundum após o nascimento. Durante a vida fetal, o forame oval é essencial para permitir que o sangue oxigenado da placenta passe do átrio direito para o esquerdo, bypassando os pulmões não funcionantes.
Normalmente, o FOP fecha funcionalmente nas primeiras horas/dias de vida quando a pressão do átrio esquerdo excede a do átrio direito. Porém, em 25-30% da população adulta, permanece anatomicamente patente, funcionando como uma "válvula" que pode abrir em situações de aumento da pressão no AD.
| Método | Técnica | Sensibilidade |
|---|---|---|
| ETT com Contraste | Solução salina agitada + manobra de Valsalva | ~50-60% |
| ETE com Contraste | Solução salina agitada + Valsalva (gold standard) | ~95% |
| Doppler Colorido | Fluxo através do septo (baixa sensibilidade isoladamente) | ~20-30% |
| Doppler Transcraniano | Detecção de microbolhas na artéria cerebral média | ~90% |
| Grau | Microbolhas no AE | Risco de Embolia |
|---|---|---|
| Pequeno | 1-10 bolhas | Baixo |
| Moderado | 11-30 bolhas | Intermediário |
| Grande | >30 bolhas ou opacificação completa | Elevado |
| Característica | Pontos |
| Sem HAS | +1 |
| Sem DM | +1 |
| Sem AVC/AIT prévio | +1 |
| Não fumante | +1 |
| AVC cortical (neuroimagem) | +1 |
| Idade | 18-29: +5 | 30-39: +4 | 40-49: +3 | 50-59: +2 | 60-69: +1 | ≥70: 0 |
Interpretação: Score ≥7 → alta probabilidade de que o FOP seja patogênico (>70%)
| Opção | Indicação | Observações |
|---|---|---|
| Antiagregação | FOP incidental; prevenção primária | AAS ou clopidogrel |
| Anticoagulação | TVP/TEP concomitante; contraindicação ao fechamento | DOACs ou warfarina |
| Fechamento Percutâneo | AVC criptogênico + FOP + RoPE ≥7 | Dispositivos: Amplatzer, Gore Cardioform, etc. |
Estudos CLOSE, REDUCE e DEFENSE-PFO: Mostraram redução de ~60-70% na recorrência de AVC com fechamento percutâneo vs. tratamento clínico isolado em pacientes selecionados.
Condição rara onde a dispneia piora em posição ortostática (platipneia) e há dessaturação ao ficar em pé (ortodeoxia), com melhora ao deitar.
Mecanismo:1. Schneider DJ, Moore JW. Patent Ductus Arteriosus. Circulation. 2006;114:1873-1882.
2. Warnes CA, Williams RG, Bashore TM, et al. ACC/AHA 2008 Guidelines for the Management of Adults with Congenital Heart Disease. J Am Coll Cardiol. 2008;52(23):e143-e263.
3. Stout KK, Daniels CJ, Aboulhosn JA, et al. 2018 AHA/ACC Guideline for the Management of Adults With Congenital Heart Disease. J Am Coll Cardiol. 2019;73(12):e81-e192.
4. Lai WW, Geva T, Shirali GS, et al. Guidelines and Standards for Performance of a Pediatric Echocardiogram: A Report from the Task Force of the Pediatric Council of the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2006;19:1413-1430.
5. Hoffman JIE, Kaplan S. The incidence of congenital heart disease. J Am Coll Cardiol. 2002;39(12):1890-1900.
6. Baumgartner H, De Backer J, Babu-Narayan SV, et al. 2020 ESC Guidelines for the management of adult congenital heart disease. Eur Heart J. 2021;42(6):563-645.
7. Dearani JA, Mora BN, Nelson TJ, et al. Ebstein Anomaly Review: What's Now, What's Next? Expert Rev Cardiovasc Ther. 2015;13(10):1101-1109.
8. Attenhofer Jost CH, Connolly HM, Dearani JA, et al. Ebstein's Anomaly. Circulation. 2007;115:277-285.
9. Pristipino C, Sievert H, D'Ascenzo F, et al. European position paper on the management of patients with patent foramen ovale. Eur Heart J. 2019;40(38):3182-3195.
10. Mas JL, Derumeaux G, Guillon B, et al. Patent Foramen Ovale Closure or Anticoagulation vs. Antiplatelets after Stroke (CLOSE trial). N Engl J Med. 2017;377:1011-1021.
11. Kent DM, Ruthazer R, Weimar C, et al. An index to identify stroke-related vs incidental patent foramen ovale in cryptogenic stroke (RoPE Score). Neurology. 2013;81:619-625.