Valva Aórtica - Graduação

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❤️ Avaliação da Valva Aórtica

A valva aórtica é responsável por impedir o refluxo de sangue da aorta para o ventrículo esquerdo durante a diástole. Suas principais doenças são a Estenose Aórtica (dificuldade de abertura) e a Insuficiência Aórtica (fechamento inadequado).

A ecocardiografia é o método de escolha para avaliação e graduação da severidade destas lesões valvares, utilizando múltiplos parâmetros hemodinâmicos e anatômicos.

🧮 Calculadora de Estenose Aórtica
📋 Dados do Paciente
m²
Opcional - necessária para área indexada e IVS
ms
Opcional - do início ao pico da velocidade aórtica
ms
Opcional - duração total do fluxo aórtico sistólico
📐 Medidas Doppler e VSVE
cm
Medido na sístole, no mesmo local do VTI da VSVE
cm
Doppler Pulsado na VSVE
cm
Doppler Contínuo transvalvar
m/s
Doppler Pulsado na VSVE
m/s
Doppler Contínuo transvalvar
Resultados da Avaliação
📐 Fórmulas e Classificações ▼
Equação da Continuidade (Área Valvar):
AVA = (Área VSVE × VTI VSVE) / VTI Aorta
Área VSVE = π × (D/2)²
• Leve: > 1,5 cm² | Moderada: 1,0 - 1,5 cm² | Grave: < 1,0 cm²

Área Indexada:
AVAi = Área Valvar / Superfície Corporal
• Leve: > 0,85 cm²/m² | Moderada: 0,60 - 0,85 cm²/m² | Grave: < 0,60 cm²/m²

Volume Sistólico e IVS:
VS = Área VSVE × VTI VSVE | IVS = VS / SC
• Fluxo Normal: IVS > 35 mL/m² | Baixo Fluxo: IVS ≤ 35 mL/m²
Fundamental para classificar padrão de fluxo na EA com baixo gradiente.

DVI (Dimensionless Velocity Index):
DVI = Vel. VSVE / Vel. Aórtica
• Normal: > 0,50 | Moderada: 0,25 - 0,50 | Grave: < 0,25
Parâmetro de suporte (ASE 2017), independente do diâmetro da VSVE. Útil em baixo fluxo. Não classifica a severidade isoladamente.

TAC (Tempo de Aceleração):
TAC prolongado indica maior gravidade.
• Normal: < 65 ms | Moderada: 65-93 ms | Grave: ≥ 94 ms
• ≥ 110 ms: hemodinamicamente grave

Razão AT/ET (mais robusta que TAC isolado):
AT/ET = Tempo de Aceleração / Tempo de Ejeção
• Normal/Leve: ≤ 0,32 | Intermediário: 0,32-0,36 | Significativa: > 0,36
Corrige variações de FC. AT/ET > 0,36 associado a 2-2,5× maior mortalidade em EA grave LFLG.
📊 Classificação da Severidade da Estenose Aórtica
Parâmetro Leve Moderada Grave
Área Valvar (cm²) > 1.5 1.0 - 1.5 < 1.0
Área Valvar Indexada (cm²/m²) > 0.85 0.60 - 0.85 < 0.60
Velocidade Máxima (m/s) 2.6 - 2.9 3.0 - 3.9 ≥ 4.0
Gradiente Médio (mmHg) < 20 20 - 40 ≥ 40
Gradiente Máximo (mmHg) < 40 40 - 64 ≥ 64
📖 Parâmetros Explicados (Estenose) ▼
Área Valvar: Calculada pela equação de continuidade. É o parâmetro mais importante e menos dependente de função ventricular e fluxo.

Área Indexada: Área valvar dividida pela superfície corporal. Mais precisa em pacientes de tamanho corporal extremo.

Velocidade Máxima: Medida por Doppler contínuo no jato transvalvar aórtico. Correlaciona-se com a severidade.

Gradiente Médio: Diferença de pressão média entre VE e aorta durante a sístole. Dependente do débito cardíaco.

Gradiente Máximo: Pico instantâneo de gradiente. Menos utilizado que o gradiente médio para classificação.
🚨 Estenose Aórtica Grave
Indicações de Intervenção (Cirurgia ou TAVI):
• Pacientes sintomáticos (angina, síncope, dispneia)
• Fração de ejeção < 50%
• Cirurgia cardíaca indicada por outra razão
• Teste de esforço positivo (sintomas ou queda de PA)
• BNP ou NT-proBNP muito elevados

Opções: Troca valvar cirúrgica (TAVI) ou transcateter (TAVI/TAVR)
⚠️ Estenose Aórtica em Situações Especiais - Baixo Fluxo, Baixo Gradiente
📋 Definição e Classificação ACC/AHA 2020 ▼
Critérios Definidores de Baixo Fluxo, Baixo Gradiente (LFLG):
• Área valvar aórtica (AVA) ≤ 1.0 cm²
• Gradiente médio < 40 mmHg
• Velocidade máxima < 4.0 m/s

📊 Estágio D2 - LFLG Clássico

Fração de Ejeção REDUZIDA (< 50%)

Características:
• AVA ≤ 1.0 cm²
• Gradiente médio < 40 mmHg
• FEVE < 50%
• Débito cardíaco reduzido
• IVS ≤ 35 mL/m²

Representa ~5-10% dos casos de EAo grave
📊 Estágio D3 - LFLG Paradoxal

Fração de Ejeção PRESERVADA (≥ 50%)

Características:
• AVA ≤ 1.0 cm²
• Gradiente médio < 40 mmHg
• FEVE ≥ 50%
• VE pequeno e hipertrófico
• IVS < 35 mL/m² (baixo fluxo)

Representa ~10-25% dos casos de EAo grave
🔑 IVS (Índice de Volume Sistólico): IVS = VS / SC
• Normal: > 35 mL/m²
• Baixo fluxo: ≤ 35 mL/m²
Fundamental para classificar o padrão de fluxo
📚 Referências:
  • Otto CM, et al. 2020 ACC/AHA Guideline for the Management of Patients With Valvular Heart Disease. Circulation. 2021.
  • Vahanian A, et al. 2021 ESC/EACTS Guidelines for the management of valvular heart disease. Eur Heart J. 2022.
  • Clavel MA, et al. Dobutamine Stress Echocardiography for Management of Low-Flow, Low-Gradient Aortic Stenosis. JACC. 2018.
  • Pibarot P, et al. Low-Flow, Low-Gradient Severe Aortic Stenosis: A Review. US Cardiology Review. 2023.
  • Baumgartner H, et al. Recommendations on the echocardiographic assessment of aortic valve stenosis. EACVI/ASE. 2017.
🔬 CT Calcium Score - Confirmação de EA Grave (ESC 2025)
Nos casos de discordância entre área valvar e gradiente, a quantificação do cálcio valvar por TC é fundamental:

👨 HOMENS

Muito Provável
> 3.000 AU

Provável
> 2.000 AU

Improvável
< 1.600 AU
👩 MULHERES

Muito Provável
> 1.600 AU

Provável
> 1.200 AU

Improvável
< 800 AU

📐 Valores Indexados por Área do Anel (para anéis pequenos/grandes):
• Homens: > 500 AU/cm² = EA grave provável
• Mulheres: > 300 AU/cm² = EA grave provável
🆕 TAVI vs Cirurgia - Atualizações ESC/EACTS 2025
Novo Cutoff de Idade para Preferência de TAVI:

🎯
Idade ≥ 70 anos → TAVI preferível
(Antes: ≥ 75 anos nas diretrizes 2021)
Algoritmo de Decisão (Heart Team):
• < 70 anos + baixo risco cirúrgico → Cirurgia
• ≥ 70 anos com valva tricúspide → TAVI preferível
• Valva bicúspide → Individualizar (anatomia favorável pode ser TAVI)
• Alto risco cirúrgico / inoperável → TAVI

Outras Novidades ESC 2025:
• EA grave assintomática com FE preservada + baixo risco → pode intervir
• CCTA como primeiro exame para avaliar DAC (se probabilidade ≤ 50%)
• Valve-in-Valve endossado para biopróteses degeneradas
📊 Classificação da Severidade da Insuficiência Aórtica
Parâmetro Leve Moderada Grave
Largura do Jato (% VSVE) < 25% 25% - 64% ≥ 65%
Vena Contracta (mm) < 3 3 - 6 > 6
Pressure Half-Time (ms) > 500 200 - 500 < 200
Volume Regurgitante (mL) < 30 30 - 59 ≥ 60
Fração Regurgitante (%) < 30% 30% - 49% ≥ 50%
Área do Orifício Regurgitante (cm²) < 0.10 0.10 - 0.29 ≥ 0.30
📖 Parâmetros Explicados (Insuficiência) ▼
Largura do Jato: Proporção entre a largura do jato regurgitante (mapeamento de fluxo em cores) e o diâmetro da VSVE.

Vena Contracta: Diâmetro da porção mais estreita do jato regurgitante, medida logo após o orifício. É um parâmetro simples e reprodutível.

Pressure Half-Time (PHT): Tempo que o gradiente diastólico leva para cair pela metade. Quanto MENOR, mais grave (refluxo rápido = IAo importante).

Volume Regurgitante: Volume de sangue que retorna ao VE a cada batimento.

Fração Regurgitante: Percentual do volume ejetado que retorna ao VE.

Área do Orifício (EROA): Área efetiva do orifício regurgitante pelo método PISA.
🚨 Insuficiência Aórtica Grave
Indicações de Cirurgia (Troca Valvar):
• Pacientes sintomáticos
• Assintomáticos com FE ≤ 50%
• Dilatação importante do VE:
  - DDVE > 70 mm ou > 40 mm/m² (indexado)
  - DSVE > 50 mm ou > 25 mm/m² (indexado)
• Cirurgia da aorta ascendente indicada
• IAo progressiva com redução da FE em seguimento

Monitoramento rigoroso em assintomáticos com IAo grave e função preservada.
✅ Sinais Complementares de IAo Grave ▼
Sinais Doppler:
• Fluxo holodiastólico reverso na aorta descendente
• Sinal de "bico de pato" do fluxo mitral (fechamento prematuro da mitral)

Achados anatômicos:
• Dilatação do VE (DDVE e DSVE aumentados)
• Hipertrofia excêntrica do VE
• Dilatação da raiz aórtica (avaliar para cirurgia da aorta)
• Movimento anormal do folheto mitral (flail ou prolapso por jato de IAo)
🔬 Classificação de Carpentier para Insuficiência Aórtica

A Classificação de Carpentier para valva aórtica é baseada no movimento das cúspides e na anatomia da raiz aórtica. É essencial para o planejamento cirúrgico e determinar a viabilidade de plastia aórtica versus troca valvar.

Tipo Movimento das Cúspides Mecanismo Causas Principais
Tipo I
(Movimento Normal)
Movimento Normal das Cúspides
Insuficiência por:
• Dilatação da raiz aórtica
• Dilatação do anel aórtico
• Perfuração de cúspide
• Dilatação da raiz (anel > 25-30 mm)
• Perfuração (endocardite)
• Síndrome aórtica aguda
• Dissecção aórtica
• Ectasia anuloaórtica
• Síndrome de Marfan
• Aortite (Takayasu, Behçet)
• Endocardite (perfuração)
• Dissecção aórtica
• Válvula aórtica bicúspide com dilatação
• Hipertensão arterial (dilatação anel)
Tipo II
(Excesso de Movimento)
Prolapso de Cúspide
Cúspide ultrapassa a linha de coaptação em direção ao VE

• Excesso de tecido
• Alongamento da borda livre
• Fenestração
• Degeneração mixomatosa
• Alongamento da cúspide
• Ruptura de comissura
• Prolapso adquirido
• Fenestração congênita
• Degeneração mixomatosa
• Válvula bicúspide com prolapso
• Endocardite (destruição/perfuração)
• Trauma
• Síndrome de Marfan
• Iatrogênica (pós-valvuloplastia)
Tipo III
(Restrição de Movimento)
Movimento Restrito
Cúspides com mobilidade reduzida, não fecham adequadamente

• Retração/fibrose de cúspides
• Espessamento
• Calcificação
• Fusão parcial
• Fibrose/retração
• Calcificação
• Encurtamento de cúspides
• Fusão comissural
• Doença inflamatória
• Doença reumática
• Endocardite cicatrizada
• Doença degenerativa calcificada
• Radiação
• Medicamentos (ergotamina, anorexígenos)
• Lúpus eritematoso
• Artrite reumatoide
I Movimento Normal
MAIS COMUM! (~70% dos casos)

Achado chave no eco:
• Medir diâmetro da raiz aórtica
• Medir anel aórtico (> 25-30 mm = anormal)
• Buscar perfurações
• Avaliar junção sinotubular

✅ Pode ser candidato a plastia aórtica + cirurgia da raiz (David/Yacoub)
II Excesso de Movimento
Prolapso de cúspide

Achado chave no eco:
• Cúspide ultrapassa linha de coaptação
• Comum em válvula bicúspide
• Procurar perfuração/vegetação
• Medir altura de coaptação

✅ Plastia possível dependendo da extensão
III Restrição de Movimento
Cúspides restritas/retraídas

Achado chave no eco:
• Espessamento/calcificação
• Mobilidade reduzida
• Fusão comissural
• Retração de bordas

⚠️ Geralmente requer troca valvar
Plastia muito difícil
💡 Importância Clínica da Classificação de Carpentier (Valva Aórtica)
1. Planejamento Cirúrgico:
• Tipo I com dilatação de raiz: Candidato a plastia aórtica + cirurgia da raiz (procedimento de David, reimplante da válvula, ou cirurgia de Yacoub)
• Tipo II: Plastia possível dependendo da extensão do prolapso e integridade das cúspides
• Tipo III: Geralmente requer troca valvar (plastia muito difícil)

2. Válvula Aórtica Bicúspide (VAB):
• VAB é uma causa comum de IAo
• Pode apresentar como Tipo I (dilatação), Tipo II (prolapso) ou misto
• Sempre medir raiz aórtica em pacientes com VAB

3. Prognóstico:
• Tipo I (dilatação): Bom prognóstico com cirurgia de preservação valvar se cúspides íntegras
• Tipo II: Depende da integridade do tecido valvar
• Tipo III: Troca valvar mandatória, prognóstico depende da doença de base

4. Cirurgia de Preservação Valvar:
• Procedimento de David (reimplante): Ideal para Tipo I com dilatação de raiz
• Cirurgia de Yacoub (remodelagem): Alternativa para Tipo I
• Requer: Cúspides íntegras, sem calcificação significativa, boa altura de coaptação

5. Avaliação Ecocardiográfica Essencial:
• Identificar o tipo de Carpentier no laudo
• Medir raiz aórtica (seios de Valsalva, junção sinotubular, aorta ascendente)
• Avaliar integridade das cúspides
• Medir altura efetiva de coaptação (EH ≥ 9 mm é ideal para plastia)
• Descrever número de cúspides (tricúspide vs bicúspide)
🔍 Atenção Especial: Válvula Aórtica Bicúspide (VAB)
A válvula aórtica bicúspide é a cardiopatia congênita mais comum (1-2% da população) e está frequentemente associada à insuficiência aórtica.

Classificação de Sievers (tipos de VAB):
• Tipo 0: Sem rafe (duas cúspides puras) - mais raro
• Tipo 1: Com uma rafe (mais comum - fusão de comissura) - subtipo 1L (rafe entre coronariana esquerda e não coronariana) é o mais frequente
• Tipo 2: Com duas rafes (muito raro)

Complicações da VAB:
• Insuficiência aórtica (Carpentier I ou II)
• Estenose aórtica (geralmente em idade mais jovem que estenose degenerativa)
• Dilatação da raiz/aorta ascendente (aortopatia associada)
• Endocardite (risco aumentado)
• Dissecção aórtica (se dilatação da raiz)

⚠️ Sempre medir a raiz aórtica em pacientes com VAB, mesmo se IAo leve!
🎯 Dica Prática para o Laudo
Exemplo de descrição no laudo:

"Insuficiência aórtica importante com jato central e vena contracta de 8 mm. Valva aórtica tricúspide com dilatação importante da raiz aórtica (seio de Valsalva direito: 52 mm, esquerdo: 51 mm, não coronariano: 50 mm), junção sinotubular: 48 mm e aorta ascendente: 49 mm (Carpentier Tipo I). Cúspides com mobilidade preservada, sem calcificação ou perfuração. Altura efetiva de coaptação: 10 mm. Anatomia favorável para cirurgia de preservação valvar (David/Yacoub)."

✅ Sempre mencione:
• O tipo de Carpentier
• Número de cúspides (tricúspide/bicúspide + tipo de Sievers se bicúspide)
• Medidas da raiz aórtica (seios, junção sinotubular, aorta ascendente)
• Estado das cúspides (mobilidade, calcificação, perfuração)
• Altura de coaptação (se disponível)
• Viabilidade de plastia vs troca valvar
📝 Observações Importantes
⚠️ Considerações Gerais ▼
1. Use múltiplos parâmetros: Nenhum parâmetro isolado é perfeito. A classificação deve ser baseada na integração de todos os dados.

2. Qualidade técnica: Janelas ecocardiográficas adequadas e alinhamento correto do Doppler são essenciais para medidas precisas.

3. Contexto clínico: Sempre correlacione os achados ecocardiográficos com sintomas, exame físico e outros exames complementares.

4. Lesões combinadas: Estenose + Insuficiência aórtica concomitantes requerem avaliação cuidadosa de ambas as lesões.

5. Seguimento: IAo e EAo graves assintomáticas requerem seguimento regular com eco a cada 6-12 meses para detectar progressão.
💡 Dicas para o Laudo
Para Estenose Aórtica:
• Sempre relatar área valvar e gradiente médio
• Mencionar função do VE (pode alterar gradientes)
• Descrever calcificação valvar
• Em casos de baixo gradiente, comentar sobre possível pseudo-estenose

Para Insuficiência Aórtica:
• Usar preferencialmente vena contracta (simples e reprodutível)
• Descrever mecanismo (dilatação da raiz, lesão do folheto, endocardite, etc.)
• Avaliar repercussão no VE (tamanho e função)
• Medir raiz aórtica e aorta ascendente (dilatação pode precisar cirurgia)
Estágio 1
Deterioração morfológica valvar:
Evidência de deterioração valvar estrutural, disfunção valvar/não estrutural (exceto leak paraprotético ou mismatch), trombose ou endocardite sem mudanças hemodinâmicas significativas
Estágio 2
Moderada deterioração hemodinâmica valvar:
↑Δ grad. médio ≥ 10 mmHg com grad. médio ≥ 20 mmHg + ↓Δ OEA ≥ 0,3 cm² ou ≥ 25% e/ou ↓Δ DVI ≥ 0,1 ou ≥ 20%
ou
Nova ocorrência ou ↑Δ 1 grau de IAo protética, resultando em IAo de grau ≥ moderado
Estágio 3
Importante deterioração hemodinâmica valvar:
↑Δ grad. médio ≥ 20 mmHg com grad. médio ≥ 30 mmHg + ↓Δ OEA ≥ 0,6 cm² ou ≥ 50% e/ou ↓Δ DVI ≥ 0,2 ou ≥ 40%
Nova ocorrência ou ↑Δ 2 grau de IAo protética, resultando em IAo de grau importante
📌 Legenda
↑Δ = Aumento do parâmetro
↓Δ = Diminuição do parâmetro
OEA = Área do Orifício Efetivo
DVI = Índice de Velocidade Doppler
IAo = Insuficiência Aórtica
grad. = Gradiente
📋 Classificação Detalhada - Deterioração de Prótese Valvar Aórtica
Parâmetro Normal Possível obstrução Obstrução significativa
Qualitativa
Estrutura e movimento de prótese Normal Frequentemente anormal* Anormal*
Envelope do fluxo transprotético ao Doppler espectralb Pico triangular, precoce Triangular a intermediário Completo, simétrico
Semi-quantitativa
Tempo de aceleração (ms)b < 80 80 - 100 > 100
Tempo de aceleração / Tempo de ejeção VE < 0,32 0,32 - 0,37 > 0,37
Quantitativa
Fluxo-dependente
Velocidade de pico (m/s)c,d < 3 3 - 4 ≥ 4
Gradiente médio (mmHg)c,d < 20 20 - 35 ≥ 35
Aumento no gradiente médio durante eco de estresse < 10 10 - 20 > 20
Aumento no gradiente médio durante acompanhamento < 5 5 - 9 ≥ 10
Fluxo-independente
Área efetiva de orifício (cm²)c,e > 1,1 0,8 - 1,1 < 0,8
Medida AEO vs. valor normal de referênciaa Referência ± 1SD < Referência - 1SD < Referência - 2SD
Diferença (medida AEO – AEO de referência) (cm²)c < 0,25 0,25 - 0,35 > 0,35
Índice de velocidade Dopplerc,e ≥ 0,35 0,25 - 0,35 < 0,25
Notas:
a Consultar Tabela 7 para valores normais de referência para a área efetiva do orifício
b Melhor avaliado por Doppler contínuo da posição apical
c Valores dependentes do tamanho da prótese valvar
d Valores derivados de múltiplos tipos de próteses
e Esses parâmetros podem ser difíceis de calcular por causa de angulação e/ou outros fatores e podem não ser reproduzíveis
* Frequentemente anormal = espessamento, calcificação, restrição de movimento; Anormal = espessamento grave, calcificação extensa, restrição grave de movimento
📌 Conceito de Progressão dos Estágios ▼
A presença de Estágio 2 ou 3 implica que alterações morfológicas (Estágio 1) já estão presentes. Os estágios são progressivos e não excludentes.

BVD clinicamente significativa ocorre quando Estágio 2 ou 3 está associado a:
• Sintomas novos ou piora de sintomas prévios
• Dilatação, hipertrofia ou disfunção do VE
• Hipertensão pulmonar

Na ausência de sintomas: requer confirmação por imagem de anormalidades morfológicas de folhetos/stent e/ou avaliação hemodinâmica invasiva confirmatória.
Pibarot P et al. JACC 2022;80(5):545-561
🔴 Valva Aórtica Bicúspide (BAV)

A valva aórtica bicúspide (BAV) é a anomalia cardíaca congênita mais comum, com incidência estimada de 0,9% a 2% na população geral (Ward, 2000; Gray et al., 1995). O termo "BAV" abrange um espectro de malformações valvares com fenótipos morfológicos heterogêneos e diferentes condições hemodinâmicas. A proporção masculino:feminino é de 3,5:1 e há componente hereditário (Cripe et al., 2004).

Prevalência
0,9 - 2%
Proporção M:F
3,5 : 1
Aneurisma
~29% dos casos
Hereditariedade
Componente genético
Conceitos Morfológicos Fundamentais

Definição de BAV

Valva aórtica com duas cúspides funcionais formando mecanismo valvar com menos de três zonas de aposição paralela. A forma mais frequente consiste em três anlagens de desenvolvimento com uma ou duas comissuras subdesenvolvidas.

O que é Rafe?

A rafe define a área conjunta das duas cúspides subdesenvolvidas, transformada em comissura malformada. Aparência: crista fibrosa com fibras elásticas (Roberts, 1970), estendendo-se da comissura à borda livre das cúspides. Pode ser parcial ou total.

Espectro da BAV

A BAV não é simplesmente a fusão de duas cúspides, mas um processo complexo envolvendo cúspides, seios, comissuras, posição dos óstios coronários e textura da parede aórtica. Vai desde a BAV "pura" (sem rafe) até formas com 1 ou 2 rafes.

Fenótipos da Valva Aórtica Bicúspide
Diagrama dos fenótipos da valva aórtica bicúspide

BAV com fusão de cúspides (Fused BAV, 90-95%): R-L (70-80%), R-N (20-30%) e L-N (<5%). BAV com 2 seios (~5%) e fusão parcial.
Fonte: Jabagi H, et al. Implications of Bicuspid Aortic Valve Disease and Aortic Stenosis/Insufficiency as Risk Factors for Thoracic Aortic Aneurysm. 2023.

Classificação de Sievers (2007) - 304 Espécimes Cirúrgicos

Sistema baseado em três características hierárquicas:

1. TIPO
Número de rafes
2. Posição
Orientação das cúspides/rafes
3. Função
Estado funcional da valva
TIPO 0 - Sem Rafe 7% (n=21)

BAV "puramente" bicúspide: duas cúspides, seios e comissuras completamente desenvolvidos.

Subtipos:
  • Lateral (lat): 13 (4%)
  • Anteroposterior (ap): 7 (2%)
Cirurgia:

Implante valvar (Ross) mais desafiador. Orientação vis-à-vis dos óstios coronários requer atenção.

TIPO 1 - Uma Rafe 88% (n=269) - MAIS FREQUENTE

Duas cúspides menores malformadas com a rafe e uma cúspide maior (geralmente a não coronariana).

L/R

216 casos (71%)
Rafe entre seios esquerdo e direito

R/N

45 casos (15%)
Rafe entre seios direito e não coronariano

N/L

8 casos (3%)
Rafe entre seios não coronariano e esquerdo

Achado mais frequente: BAV Tipo 1, L/R, S (estenose) = 119 pacientes (39% da série)
TIPO 2 - Duas Rafes 5% (n=14)

Valva com duas rafes e anlagens de três cúspides (2 subdesenvolvidas + 1 completa). Três seios identificáveis.

L/R - R/N

Todos os 14 casos (5%)

Idade

Significativamente mais jovens (40 vs 53 anos, P = 0,007)

⚠️ Maior risco de aneurisma

Proporção significativamente maior de aneurismas da aorta ascendente (P = 0,022)

Tabela de Classificação de Sievers - Esquema Original
Classificação de Sievers - Tipos 0, 1 e 2

Visão do cirurgião (seio coronário esquerdo à esquerda). Linhas proeminentes = rafes.
Fonte: Sievers HH, Schmidtke C. J Thorac Cardiovasc Surg. 2007;133:1226-33.

Sistema de Codificação
TIPO + Posição + Função
BAV Tipo 1, L/R, S

= Bicúspide com uma rafe entre seios esquerdo e direito, com estenose. Achado mais frequente (39%).

Abreviações: I = Insuficiência S = Estenose B = Balanceada No = Normal X = N/C
Diagnóstico Ecocardiográfico da BAV

Critérios ao ETT

  • Eixo curto paraesternal: 2 cúspides em diástole
  • Abertura "boca de peixe" ou excêntrica
  • Identificação da rafe
  • Folhetos com tamanhos desiguais
  • Abertura sistólica em cúpula (doming)
  • Fechamento excêntrico em diástole

Armadilhas Diagnósticas

  • Calcificação intensa dificulta classificação
  • Comissura obliterada é típica de BAV
  • Distância entre comissuras desigual na BAV
  • Maior incidência de dominância de TCE
  • Tricúspide calcificada pode simular BAV

Protocolo de Avaliação

  • Classificar Tipo de Sievers (0, 1, 2)
  • Identificar posição da rafe
  • Quantificar estenose e insuficiência
  • Medir aorta (anel, seios, JTS, ascendente)
  • Avaliar função do VE
  • Excluir coarctação e outras congênitas
📚 Referências Bibliográficas - BAV
1. Sievers HH, Schmidtke C. A classification system for the bicuspid aortic valve from 304 surgical specimens. J Thorac Cardiovasc Surg. 2007;133:1226-33.

2. Jabagi H, Levine D, Gharibeh L, et al. Implications of Bicuspid Aortic Valve Disease and Aortic Stenosis/Insufficiency as Risk Factors for Thoracic Aortic Aneurysm. Open Access Review. 2023.

3. Ward C. Clinical significance of the bicuspid aortic valve. Heart. 2000;83:81-5.

4. Roberts WC. The congenital bicuspid aortic valve. Am J Cardiol. 1970;26:72-83.

5. Sabet HY, Edwards WD, et al. Congenitally bicuspid aortic valves: surgical pathology study of 542 cases. Mayo Clin Proc. 1999;74:14-26.

6. Nistri S, et al. Aortic root dilatation in young men with normally functioning bicuspid aortic valves. Heart. 1999;82:19-22.

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