Avaliação da Função Regional do Ventrículo Esquerdo

Hipocinesia, Acinesia e Discinesia: Definições e Critérios Diagnósticos

Baseado em: Recommendations for Cardiac Chamber Quantification by Echocardiography in Adults (ASE/EACVI 2015)
Referência: Journal of the American Society of Echocardiography, Volume 28, Number 1

Introdução

A avaliação da função regional do ventrículo esquerdo é um componente fundamental do exame ecocardiográfico, particularmente no contexto da doença arterial coronariana e outras cardiomiopatias. A capacidade de identificar e classificar adequadamente as alterações da motilidade parietal permite a detecção precoce de isquemia miocárdica, a avaliação da extensão de infarto e o acompanhamento da resposta terapêutica.

Este artigo técnico apresenta as definições padronizadas e recomendações atualizadas das diretrizes da American Society of Echocardiography (ASE) e da European Association of Cardiovascular Imaging (EACVI), publicadas em 2015, focando especificamente nos conceitos de hipocinesia, acinesia e discinesia.

O Princípio da Avaliação Visual

Fundamento da Análise Regional

A função regional do ventrículo esquerdo é avaliada com base em dois parâmetros principais: o espessamento da parede miocárdica e a excursão endocárdica. No entanto, as diretrizes enfatizam que o foco principal deve ser a deformação regional, que inclui o espessamento e o encurtamento do miocárdio.

Por que o Espessamento é Mais Importante?

O movimento endocárdico isolado pode ser enganoso devido a fenômenos de movimento passivo. Segmentos adjacentes normais podem tracionar ou "arrastar" segmentos disfuncionais (tethering), criando a falsa impressão de movimento ativo. Além disso, o deslocamento geral do coração pode simular movimento segmentar.

⚠️ Importante

Um segmento pode apresentar excursão endocárdica aparentemente normal mas ter espessamento sistólico reduzido ou ausente, indicando disfunção regional verdadeira. Por isso, a análise deve sempre priorizar a observação do espessamento parietal como critério diagnóstico primário.

Técnica de Avaliação

  • Visualização múltipla: Cada segmento deve ser avaliado em múltiplas janelas acústicas
  • Análise qualitativa: Observação visual sistemática do espessamento sistólico
  • Comparação segmentar: Avaliação relativa entre segmentos adjacentes
  • Avaliação em tempo real: Observação dinâmica durante todo o ciclo cardíaco

Definições e Sistema de Pontuação (Score)

As diretrizes ASE/EACVI recomendam um sistema de pontuação de 4 pontos para classificar a função regional de cada segmento do ventrículo esquerdo. Este sistema padronizado permite comunicação objetiva e quantificação da extensão da disfunção miocárdica.

Tabela de Classificação da Motilidade Parietal

Score Classificação Definição Características
1 Normal ou Hipercinético Função normal ou aumentada Espessamento sistólico adequado (≥30-40%); movimento endocárdico normal ou aumentado
2 Hipocinesia Espessamento reduzido Espessamento sistólico diminuído; movimento endocárdico reduzido mas presente
3 Acinesia Espessamento ausente ou negligenciável Sem espessamento sistólico perceptível; geralmente associado a cicatriz/fibrose
4 Discinesia Afilamento ou estiramento sistólico Movimento paradoxal (expansão durante sístole); geralmente associado a aneurisma

Descrições Detalhadas

1. Normal ou Hipercinético Score 1

Espessamento normal: O segmento apresenta espessamento sistólico adequado, tipicamente na ordem de 30-40% ou mais. O movimento endocárdico é vigoroso e coordenado com os segmentos adjacentes.

Hipercinesia: Pode ocorrer em resposta compensatória a disfunção de outros segmentos ou em condições de baixa pós-carga. Deve ser interpretada no contexto clínico global.

2. Hipocinesia Score 2

Definição técnica: Caracteriza-se por espessamento sistólico reduzido em comparação com segmentos normais. O segmento ainda apresenta algum grau de contração ativa, mas sua amplitude é visivelmente diminuída.

Significado clínico: Pode indicar isquemia miocárdica (aguda ou crônica), miocárdio atordoado (stunned), hibernante, ou infarto não transmural. O movimento endocárdico ainda está presente, porém reduzido.

Graduação: A hipocinesia pode variar de leve a grave, embora as diretrizes não subdividam formalmente esta categoria. Na prática, termos descritivos como "hipocinesia leve/moderada/importante" são frequentemente utilizados.

3. Acinesia Score 3

Definição técnica: Caracteriza-se por espessamento ausente ou negligenciável. O segmento não apresenta contração ativa visível durante a sístole.

Substrato patológico: Geralmente indica a presença de cicatriz miocárdica (fibrose) resultante de infarto transmural. O tecido fibrótico não possui capacidade contrátil.

Diferenciação importante: Embora possa haver algum movimento endocárdico devido ao tethering de segmentos adjacentes ou ao deslocamento global do coração, não há espessamento parietal real. Esta distinção é crucial para o diagnóstico correto.

Viabilidade miocárdica: Em casos selecionados, a acinesia pode ser reversível se houver miocárdio hibernante. Métodos complementares (ecocardiografia com estresse, PET, ressonância magnética) podem ser necessários para avaliar viabilidade.

4. Discinesia Score 4

Definição técnica: Caracteriza-se por afilamento ou estiramento sistólico, com movimento paradoxal do segmento. Durante a sístole, quando o ventrículo deveria contrair, o segmento discinético expande ou se projeta externamente.

Correlação anatômica: Geralmente associado à presença de aneurisma ventricular. O segmento apresenta não apenas ausência de contração, mas deformação ativa em sentido oposto ao esperado.

Implicações hemodinâmicas: O movimento paradoxal resulta em desperdício de energia contrátil, reduzindo significativamente a eficiência mecânica do ventrículo. Além disso, pode predispor à formação de trombos intracavitários.

Aspectos morfológicos: A discinesia está frequentemente associada a dilatação localizada, afilamento parietal e alteração da geometria ventricular.

Segmentação do Ventrículo Esquerdo - Modelo de 17 Segmentos

Figura 1: Representação esquemática do modelo de 17 segmentos do ventrículo esquerdo correlacionado com as diferentes janelas ecocardiográficas (Long axis, Two chamber, Four chamber). Fonte: Journal of the American Society of Echocardiography, Volume 28, Number 1.

Segmentação do Ventrículo Esquerdo

Modelos de Segmentação

A avaliação da função regional requer uma abordagem sistemática baseada na divisão do ventrículo esquerdo em segmentos específicos. As diretrizes ASE/EACVI recomendam dois modelos principais:

Modelo de 17 Segmentos

O modelo de 17 segmentos é preferencial para:

  • Estudos de perfusão miocárdica (cintilografia, PET)
  • Correlação com outras modalidades de imagem (ressonância magnética cardíaca)
  • Mapeamento de territórios coronarianos
  • Padronização na comunicação entre diferentes modalidades

Modelo de 16 Segmentos

O modelo de 16 segmentos é utilizado para avaliação de rotina da motilidade parietal por ecocardiografia. A razão principal é que a ponta do ápice (apical cap ou segmento 17) não possui espessamento parietal perceptível, tornando impossível a avaliação de sua contratilidade pelos critérios convencionais.

Distribuição Segmentar

Segmentos Basais (6 segmentos):

  • Basal anterior
  • Basal anterosseptal
  • Basal inferosseptal
  • Basal inferior
  • Basal inferolateral
  • Basal anterolateral

Segmentos Médios (6 segmentos):

  • Médio anterior
  • Médio anterosseptal
  • Médio inferosseptal
  • Médio inferior
  • Médio inferolateral
  • Médio anterolateral

Segmentos Apicais (4-5 segmentos):

  • Apical anterior
  • Apical septal
  • Apical inferior
  • Apical lateral
  • Ápice (segmento 17 - apenas em modelo de 17 segmentos)

Janelas Ecocardiográficas para Avaliação

A avaliação completa requer múltiplas janelas acústicas:

  • Paraesternal eixo longo: Septo, parede inferolateral, segmentos basais e médios
  • Paraesternal eixo curto (níveis basal, médio e apical): Visão circunferencial de todos os segmentos
  • Apical 4 câmaras: Septo e parede lateral (basal, médio, apical)
  • Apical 2 câmaras: Parede anterior e inferior
  • Apical 3 câmaras (eixo longo apical): Septo e parede inferolateral
Distribuição dos Territórios Coronarianos

Figura 2 (Figure 5 - ASE/EACVI): Distribuição típica das artérias coronárias direita (RCA), descendente anterior esquerda (LAD) e circunflexa (CX) pelos segmentos do ventrículo esquerdo em diferentes níveis (basal, médio e apical). A distribuição arterial varia entre pacientes e alguns segmentos apresentam perfusão coronariana variável. Fonte: Journal of the American Society of Echocardiography, Volume 28, Number 1.

Correlação com Territórios Coronarianos

A segmentação do ventrículo esquerdo permite correlação com os territórios de perfusão das artérias coronárias, facilitando a identificação da artéria culpada em casos de alterações regionais de motilidade:

Artéria Descendente Anterior Esquerda (LAD):

  • Segmentos anterior (basal, médio, apical)
  • Segmentos anterosseptal (basal, médio)
  • Segmento apical septal
  • Ápice (segmento 17)

🎬 Vídeos Demonstrativos - Acinesia dos Segmentos Apicais e Parede Anterior (Território LAD)

Acesse os vídeos para melhor entendimento da avaliação ecocardiográfica da acinesia em diferentes cortes:

Eixo Curto

Visualização da acinesia dos segmentos apicais e parede anterior no eixo curto.

4 Câmaras

Demonstração da acinesia apical na janela apical 4 câmaras.

Paraesternal Eixo Longo

Visualização da acinesia da parede anterior no paraesternal eixo longo.

Artéria Circunflexa (CX):

  • Segmentos anterolateral (basal, médio)
  • Segmentos inferolateral (basal, médio)
  • Segmento apical lateral

Artéria Coronária Direita (RCA):

  • Segmentos inferior (basal, médio, apical)
  • Segmentos inferosseptal (basal, médio)

🎬 Vídeos Ilustrativos - IAM de Parede Inferior (Território RCA)

Os vídeos abaixo demonstram alterações de contratilidade segmentar compatíveis com infarto de parede inferior, tipicamente associado à oclusão da artéria coronária direita (RCA).

Parede Inferior - Apical 2 Câmaras (A2C)

Visualização da acinesia/hipocinesia dos segmentos inferior basal e médio na janela A2C.

Parede Inferior

Demonstração de alteração de contratilidade na parede inferior do ventrículo esquerdo.

Variabilidade Anatômica

É importante ressaltar que a distribuição coronariana apresenta variabilidade entre pacientes. Segmentos específicos podem ter perfusão mista ou variável (indicados como "RCA or CX", "LAD or CX", "RCA or LAD" na figura). A dominância coronariana (direita, esquerda ou codominante) também influencia a distribuição dos territórios.

Índices Quantitativos Derivados

Wall Motion Score Index (WMSI)

A partir da pontuação individual de cada segmento, pode-se calcular o Índice de Score de Motilidade Parietal (Wall Motion Score Index - WMSI):

Fórmula do WMSI

WMSI = Σ (score de cada segmento) / Número de segmentos visualizados

Interpretação do WMSI:

  • WMSI = 1: Função regional normal em todos os segmentos
  • WMSI > 1: Presença de disfunção regional (quanto maior, mais extensa/grave)
  • WMSI 1,0-1,5: Disfunção leve
  • WMSI 1,5-2,0: Disfunção moderada
  • WMSI > 2,0: Disfunção grave

Aplicação Clínica do WMSI

O WMSI fornece uma medida quantitativa da extensão da disfunção regional e tem valor prognóstico estabelecido, especialmente no contexto de infarto agudo do miocárdio. É particularmente útil na ecocardiografia de estresse para quantificar a resposta isquêmica.

Contexto Clínico e Limitações

Aneurismas Ventriculares

Os aneurismas ventriculares são entidades morfológicas caracterizadas por dilatação localizada e afilamento parietal. Do ponto de vista funcional, apresentam deformação sistólica tipicamente acinética ou discinética.

Características dos Aneurismas:

  • Dilatação segmentar com perda da geometria ventricular normal
  • Afilamento parietal significativo (frequentemente < 5 mm)
  • Movimento paradoxal durante a sístole (discinesia)
  • Geralmente resultado de infarto transmural extenso
  • Risco de complicações: trombo mural, arritmias, insuficiência cardíaca

Anormalidades de Movimento Não Isquêmicas

⚠️ Importante: Diagnóstico Diferencial

Nem todas as anormalidades de movimento regional indicam doença arterial coronariana. Condições que alteram a sequência de ativação elétrica podem produzir padrões de movimento anormais mesmo em miocárdio estruturalmente normal.

Principais Causas Não Isquêmicas:

1. Bloqueio de Ramo Esquerdo (BRE)

O bloqueio de ramo esquerdo altera dramaticamente a sequência de ativação ventricular, resultando em contração septal precoce seguida de contração tardia da parede lateral. Isto cria:

  • Septal bounce: Movimento septal paradoxal (em direção ao VD) no início da sístole, seguido de movimento tardio em direção ao VE
  • Hipocinesia septal aparente
  • Dissincronia interventricular e intraventricular

Importante: Essas alterações ocorrem devido à ativação elétrica anormal, não devido a disfunção miocárdica primária ou isquemia.

2. Marcapasso Ventricular (Estimulação VD)

A estimulação ventricular direita cria padrão semelhante ao BRE, com ativação assíncrona e alterações de motilidade septal. O movimento anormal é consequência da sequência de despolarização não fisiológica.

3. Sobrecarga do Ventrículo Direito

Condições que causam sobrecarga do VD (hipertensão pulmonar, embolia pulmonar, estenose pulmonar) podem resultar em:

  • Apical rocking: Movimento de báscula do ápice
  • Movimento septal paradoxal devido à alteração das condições de carga
  • Achatamento septal com desvio em direção ao VE

Outras Limitações e Considerações

Limitações Técnicas:

  • Qualidade de imagem: Janela acústica inadequada pode impedir avaliação precisa
  • Variabilidade inter-observador: Avaliação visual tem componente subjetivo
  • Segmentos não visualizados: Devem ser excluídos do cálculo do WMSI
  • Necessidade de experiência: Curva de aprendizado para avaliação precisa

Fatores que Afetam a Avaliação:

  • Frequência cardíaca elevada (dificulta análise quadro-a-quadro)
  • Arritmias (fibrilação atrial, extra-sístoles)
  • Condições de carga (pré e pós-carga alteradas)
  • Estado inotrópico (uso de catecolaminas, inotrópicos)

Recomendação Prática

A interpretação das alterações de motilidade regional deve sempre considerar o contexto clínico completo, incluindo história, eletrocardiograma, e função global do ventrículo. Em casos duvidosos ou complexos, modalidades complementares (ecocardiografia de estresse, ressonância magnética, cintilografia) podem ser necessárias.

Aplicações Clínicas

1. Doença Arterial Coronariana

  • Detecção de isquemia em repouso ou durante estresse
  • Identificação do território coronariano acometido
  • Estratificação de risco pós-infarto
  • Avaliação de viabilidade miocárdica (dobutamina de baixa dose)

2. Cardiomiopatias

  • Caracterização de padrões regionais em cardiomiopatia hipertrófica
  • Avaliação de heterogeneidade contrátil em cardiomiopatia dilatada
  • Identificação de fibrose em cardiomiopatia restritiva

3. Avaliação Pré e Pós-Revascularização

  • Planejamento de estratégia de revascularização
  • Avaliação de sucesso após intervenção
  • Acompanhamento de recuperação funcional

4. Terapia de Ressincronização Cardíaca

  • Identificação de dissincronia mecânica
  • Seleção de candidatos apropriados
  • Avaliação de resposta terapêutica

Conclusão

A avaliação da função regional do ventrículo esquerdo é uma habilidade essencial em ecocardiografia, com impacto direto no diagnóstico, estratificação de risco e tomada de decisão terapêutica. A aplicação rigorosa das definições padronizadas de hipocinesia, acinesia e discinesia, conforme as diretrizes ASE/EACVI, é fundamental para garantir comunicação precisa e reprodutibilidade entre observadores e instituições.

O foco na deformação regional (espessamento parietal) em detrimento do movimento endocárdico isolado representa um princípio diagnóstico crucial para evitar interpretações errôneas. A utilização do sistema de pontuação de 4 pontos e do modelo de segmentação apropriado (16 ou 17 segmentos) permite avaliação sistemática e quantificação objetiva através do WMSI.

É importante reconhecer as limitações da análise visual e estar atento a causas não isquêmicas de alterações de motilidade, como bloqueio de ramo esquerdo e sobrecarga ventricular direita. A integração da avaliação da função regional com outros parâmetros ecocardiográficos e com o contexto clínico global é essencial para o diagnóstico preciso e o manejo adequado dos pacientes.

Pontos-Chave para a Prática Clínica

  • Priorize o espessamento parietal sobre o movimento endocárdico
  • Utilize o sistema de pontuação padronizado (1-4)
  • Avalie cada segmento em múltiplas janelas
  • Considere o contexto clínico e causas não isquêmicas
  • Calcule o WMSI para quantificação objetiva
  • Documente achados de forma clara e padronizada

📚 Referência Bibliográfica Principal

Lang RM, Badano LP, Mor-Avi V, et al. Recommendations for Cardiac Chamber Quantification by Echocardiography in Adults: An Update from the American Society of Echocardiography and the European Association of Cardiovascular Imaging. Journal of the American Society of Echocardiography. 2015;28(1):1-39.e14.

DOI: 10.1016/j.echo.2014.10.003