Miocardiopatia Hipertrófica (MCH)
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💪 Miocardiopatia Hipertrófica

A Miocardiopatia Hipertrófica (MCH) é uma doença genética caracterizada por hipertrofia ventricular esquerda não explicada por condições de carga anormais. É a doença cardiovascular genética mais comum, com prevalência de 1:500 na população geral.

🔍 Definição

Espessura da parede do VE ≥ 15 mm em qualquer segmento (≥ 13 mm em familiares de portadores de MCH) que não pode ser explicada apenas por condições de sobrecarga.

📊 Diagnóstico Ecocardiográfico

🎯 Critérios Diagnósticos

Critério Valor Observação
Espessura máxima VE ≥ 15 mm Qualquer segmento do VE
História familiar positiva ≥ 13 mm Em parentes de 1º grau
Hipertrofia assimétrica Septo/Parede posterior > 1,3-1,5 Padrão mais comum

📐 Padrões de Hipertrofia

🔸 Septal Assimétrica

Mais comum

Hipertrofia predominante do septo interventricular, especialmente os segmentos basais e médios.

🔸 Apical

Forma de Yamaguchi

Hipertrofia confinada ao ápice do VE. Aspecto em "pá" ou "ás de espadas".

🔸 Concêntrica

Simétrica

Hipertrofia difusa e simétrica de todas as paredes do VE.

🔸 Médio-ventricular

Rara

Hipertrofia predominante nos segmentos médios, pode causar obstrução médio-cavitária.

🎯 SAM - Movimento Anterior Sistólico da Mitral

O SAM (Systolic Anterior Motion) é o movimento anterior sistólico da valva mitral (geralmente do folheto anterior ou segmento médio) em direção ao septo interventricular durante a sístole.

⚠️ Importância Clínica

O SAM é responsável pela obstrução dinâmica da via de saída do VE (LVOT) e pela insuficiência mitral associada na MCH obstrutiva.

📏 Classificação do SAM

Tipo de SAM Descrição Significado
SAM Leve Folheto não toca o septo Sem obstrução significativa
SAM Moderado Contato intermitente com o septo Obstrução leve a moderada
SAM Grave Contato prolongado (>30% da sístole) Obstrução significativa do LVOT

🔬 Mecanismos do SAM

⚙️ Avaliação Ecocardiográfica do SAM

🎬 Modo M

  • Visualizar movimento e duração do contato
  • Medir duração do SAM em relação à sístole
  • Avaliar distância folheto-septo

🎥 Modo 2D

  • Identificar qual folheto está envolvido
  • Avaliar extensão da coaptação mitral
  • Verificar geometria do LVOT

🌊 Doppler

  • Documentar gradiente no LVOT
  • Quantificar insuficiência mitral
  • Avaliar jato de IM (direcionado posteriormente)

🎨 Color Doppler

  • Localizar ponto de obstrução
  • Avaliar turbulência no LVOT
  • Caracterizar jato regurgitante

🚧 Obstrução da Via de Saída do VE (LVOT)

A obstrução dinâmica do LVOT ocorre em aproximadamente 70% dos pacientes com MCH, sendo um importante determinante prognóstico e alvo terapêutico.

📊 Critérios de Obstrução (Atualizado 2024)

Classificação Gradiente (Repouso/Provocado) Conduta Clínica
Não Obstrutiva < 30 mmHg Manejo conservador / Observação
Obstrução Latente < 30 mmHg (Repouso)
≥ 30 mmHg (Provocado)
Tratar se sintomático
Obstrução Hemodinâmica Significativa ≥ 50 mmHg Limiar para Terapias*
*Inibidores de Miosina ou Redução Septal
🔴 Ponto de Corte Crítico

Gradiente ≥ 50 mmHg em repouso ou provocado, associado a sintomas refratários (Classe NYHA III-IV), é a indicação clássica para intervenção.

💊 Nova Opção Terapêutica: Inibidores de Miosina

O Mavacanteno (Inibidor da Miosina Cardíaca) é agora recomendado (Classe I) para pacientes sintomáticos com obstrução que não respondem à terapia inicial com betabloqueadores ou bloqueadores de canal de cálcio, oferecendo uma alternativa à cirurgia em muitos casos.

🔬 Técnica de Medida do Gradiente

📐 Doppler Contínuo no LVOT
  1. Posição: Janela apical 5 câmaras ou supraesternal
  2. Alinhamento: Paralelo ao fluxo de saída do VE
  3. Sinal: Padrão em "adaga" ou "cimitarra" (pico tardio na sístole)
  4. Velocidade máxima: Medir o pico de velocidade
  5. Gradiente: Calcular usando equação simplificada de Bernoulli (4V²)
  6. Múltiplas medidas: Obter pelo menos 3-5 batimentos

🏃 Manobras Provocativas

Manobras fisiológicas são essenciais para desmascarar a obstrução latente.

💊 Valsalva

Reduz pré-carga → aumenta gradiente

Primeira Linha

🧘 Agachamento (Squat-to-stand)

Ao levantar rapidamente → reduz pré-carga

Simples e Eficaz

🏃 Ecocardiograma sob Estresse Físico

Padrão-ouro para pacientes sintomáticos sem gradiente em repouso/Valsalva.

Esteira ou Bicicleta

🚫 Dobutamina

CONTRAINDICADA

Pode induzir gradientes não fisiológicos em corações normais e não deve ser usada para diagnóstico de obstrução na MCH.

⚠️ Estratificação de Risco de Morte Súbita

A avaliação de risco deve utilizar calculadoras validadas e a pesquisa ativa dos seguintes marcadores de alto risco (Diretrizes SBC/AHA 2024):

🧮 Calculadora de Risco HCM Risk-SCD (AHA)

Utilize a calculadora oficial da American Heart Association para estimar o risco de morte súbita cardíaca em 5 anos:

🔗 Acessar Calculadora HCM Risk-SCD (AHA)

📉 Disfunção Sistólica

FEVE < 50%

Considerada disfunção terminal na MCH.

🎈 Aneurisma Apical

Visualizado melhor com contraste ou RM.

Alto Risco

📏 Hipertrofia Maciça

Espessura parietal ≥ 30 mm em qualquer segmento.

🧶 Fibrose Extensa (LGE)

Realce tardio na RM Cardíaca (>15% da massa).

👁️ Regra do Ápice (Diretriz 2024)

Se a visualização dos segmentos apicais for subótima em pelo menos 2 planos, é obrigatório o uso de agente de realce (contraste ecocardiográfico) ou RM para excluir aneurisma apical pequeno, que muda drasticamente o risco do paciente.

🔍 Achados Ecocardiográficos Adicionais

💓 Função Sistólica

📉 Análise de Strain (GLS)

O Strain Longitudinal Global (GLS) é frequentemente reduzido (< -16%) mesmo com Fração de Ejeção normal.

  • Sinal característico: "Strain Poupado no Ápice" (típico de Amiloidose) NÃO é o padrão da MCH.
  • Padrão da MCH: Redução do strain coincidente com os segmentos de maior hipertrofia (redução regional).

🌊 Função Diastólica

Insuficiência Mitral

IM na MCH tem características especiais:

  • Mecanismo: Falha de coaptação pelo SAM (não orgânica)
  • Direção do jato: Posterolateral (afastado do SAM)
  • Timing: Início médio-sistólico (não holosistólico)
  • Gravidade: Geralmente leve a moderada
  • Dinâmica: Varia com a obstrução do LVOT

📏 Outras Medidas Importantes

Parâmetro Achado Típico na MCH Significado
Diâmetro do LVOT Reduzido (< 20 mm) Predisposição à obstrução
Ângulo aorto-septal < 120° Favorece obstrução
Comprimento folheto anterior Alongado (> 30 mm) Facilita SAM
Volume AE indexado Aumentado (> 34 mL/m²) Disfunção diastólica crônica
Movimento septal Paradoxal (raro) Obstrução médio-ventricular

🔄 Diagnóstico Diferencial

🏃 Zona Cinzenta (13-15 mm): Atleta ou MCH?

Parâmetro Favorável a MCH Favorável a Coração de Atleta
Diâmetro Diastólico VE Reduzido (< 45 mm) Aumentado (> 55 mm)
Átrio Esquerdo Aumentado Normal ou leve aumento
Função Diastólica (e') Reduzida (< 7 cm/s) Normal (> 10 cm/s)
Descondicionamento (3 meses) Hipertrofia persiste Hipertrofia regride

💉 Hipertensão Arterial

  • Hipertrofia concêntrica simétrica
  • História de HAS prolongada
  • Sem SAM
  • Cavidade não obliterada

🚪 Estenose Aórtica

  • Hipertrofia secundária
  • Valva aórtica espessada/calcificada
  • Gradiente aórtico
  • Regride após troca valvar

💎 Amiloidose Cardíaca

  • Espessamento biventricular
  • Aparência "brilhante" do miocárdio
  • Derrame pericárdico
  • Strain apical poupado

📚 Referências

  1. Ommen SR, et al. 2024 AHA/ACC/AMSSM/HRS/PACES/SCMR Guideline for the Management of Hypertrophic Cardiomyopathy. Circulation. 2024.
  2. Fernandes F, et al. Diretriz Brasileira de Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e202400415.
  3. Nagueh SF, et al. ASE Clinical Recommendations for Multimodality Cardiovascular Imaging of Patients with Hypertrophic Cardiomyopathy. J Am Soc Echocardiogr. Updated 2022/2025.
  4. Maron MS, et al. Contemporary Natural History and Management of Nonobstructive Hypertrophic Cardiomyopathy. J Am Coll Cardiol. 2016;67(12):1399-1409.