Cardiopatias Congênitas - Guia Completo
🔍
👶 Persistência do Canal Arterial (PCA)
🫀 Persistência do Canal Arterial (PCA)

A Persistência do Canal Arterial (PCA), também conhecida como Persistência do Ductus Arteriosus (PDA), é uma cardiopatia congênita caracterizada pela falha no fechamento do canal arterial após o nascimento.

O canal arterial é uma estrutura vascular normal durante a vida fetal, conectando a artéria pulmonar à aorta descendente, permitindo desvio (shunt) do sangue da circulação pulmonar. Normalmente, fecha-se nas primeiras 48-72 horas de vida.

🎥 Vídeo Demonstrativo - Persistência do Canal Arterial

💡 Vídeo demonstrativo mostrando a anatomia e o fluxo sanguíneo característico da Persistência do Canal Arterial

🧬 Anatomia e Fisiopatologia
📍 Localização Anatômica
Origem: Artéria pulmonar (tronco ou ramo esquerdo)
Inserção: Aorta descendente (logo após artéria subclávia esquerda)
Comprimento: Variável (5-25 mm)
Diâmetro: Variável (2-20 mm)
💡 Fisiopatologia do Shunt
PCA com Shunt Esquerda-Direita (E→D):
• Após o nascimento, a resistência vascular pulmonar cai
• Fluxo sanguíneo da aorta → artéria pulmonar
• Sobrecarga de volume do AE e VE
• Hiperfluxo pulmonar → congestão → hipertensão pulmonar

Síndrome de Eisenmenger (tardia):
• Hipertensão pulmonar grave irreversível
• Inversão do shunt (D→E) com cianose diferencial
• Contraindicação ao fechamento do canal
📊 Classificação da Persistência do Canal Arterial

Classificação por Tamanho

Classificação Diâmetro no Estreitamento Repercussão Hemodinâmica
PCA Pequena < 2,5 mm Mínima ou ausente
PCA Moderada 2,5 - 4,0 mm Dilatação leve de AE/VE
PCA Grande > 4,0 mm Sobrecarga importante de volume

Classificação Morfológica (Krichenko)

Tipo Descrição Frequência
Tipo A Cônico, afunilamento do lado aórtico ~50%
Tipo B Janela, curto e amplo ~12%
Tipo C Tubular, diâmetro uniforme ~22%
Tipo D Complexo, múltiplas constrições ~8%
Tipo E Elongado, tortuoso ~8%
🎯 Relevância Clínica da Classificação
Tipo A: Mais favorável para fechamento percutâneo
Tipo B: Maior risco de embolização de dispositivo
Tipo D e E: Podem necessitar cirurgia
🔍 Diagnóstico Ecocardiográfico

Janelas Ecocardiográficas

✅ Janela Paraesternal Esquerda Alta
Melhor janela para visualização direta:
• Posicionar transdutor no 2º-3º espaço intercostal esquerdo
• Visualização do ductus em eixo curto da aorta
• Conexão entre artéria pulmonar e aorta descendente
• Permite medida do diâmetro do canal

Parâmetros para Avaliação

Parâmetro Como Medir Significado
Diâmetro do PCA Menor diâmetro interno (modo 2D) Define magnitude do shunt
Qp/Qs Relação fluxo pulmonar/sistêmico > 1,5:1 = shunt significativo
Diâmetro AE Modo M ou 2D (indexado) Sobrecarga de volume
Relação AE/Ao Diâmetro AE / Diâmetro Ao > 1,3 = sobrecarga
DDVE/DSVE Diâmetros diastólico/sistólico VE Remodelamento do VE
Vel. Máxima Doppler Doppler contínuo no canal Estima gradiente Ao-AP
PSAP Via jato de IT + PVC Avalia hipertensão pulmonar
⚠️ Sinais de Repercussão Hemodinâmica Importante
Sobrecarga de volume: AE/Ao > 1,5 | DDVE > P97
Hiperfluxo pulmonar: Qp/Qs > 2:1
Disfunção ventricular: FE < 55%
Hipertensão pulmonar: PSAP > 40 mmHg
Fluxo diastólico reverso: Aorta descendente (Doppler pulsado)

Padrões de Fluxo ao Doppler

🎵 Características do Fluxo
Doppler Contínuo no PCA:
Fluxo contínuo: Todo o ciclo cardíaco (sistólico E diastólico)
Velocidade alta: Geralmente > 3 m/s (shunt E→D)
Pico sistólico: Maior gradiente Ao-AP
Fluxo diastólico persistente: Característico da PCA

Doppler Pulsado na Aorta Descendente:
Fluxo reverso diastólico: "Roubo" diastólico pela PCA
• Quanto maior o reverso, maior o shunt

PCA Silenciosa (Silent PDA):
• PCA muito pequena ou com equalização de pressões
• Pode não ter sopro audível
• Diagnóstico apenas ecocardiográfico
🎯 Indicações de Fechamento
✅ Indicações Classe I (Recomendado)
PCA com repercussão hemodinâmica:
• Sobrecarga de volume do AE e/ou VE
• Dilatação de câmaras esquerdas
• Hipertensão pulmonar (PSAP < 2/3 sistêmica)
• Sinais de insuficiência cardíaca
• Shunt significativo (Qp/Qs > 1,5:1)

PCA em prematuros:
• Dependência ventilatória
• Instabilidade hemodinâmica
• Enterocolite necrosante iminente
🤔 Indicações Classe IIa (Considerar)
• PCA pequena com sopro audível (risco de endocardite)
• PCA "silenciosa" com evidência ecocardiográfica
• PCA assintomática em adultos (prevenir complicações)
• Idade > 6 meses, peso > 5 kg (para fechamento percutâneo)
❌ Contraindicações ao Fechamento
Absolutas:
Síndrome de Eisenmenger: Shunt direita-esquerda estabelecido
PSAP suprassistêmica: Hipertensão pulmonar irreversível
Dependência do shunt: Cardiopatias ductus-dependentes
Infecção ativa: Sepse, endocardite

Relativas:
• Prematuridade extrema (< 1 kg)
• Coagulopatia grave
• Anatomia desfavorável (tipo B)

Opções de Fechamento

Método Indicação Vantagens Limitações
Percutâneo
(Dispositivos)
PCA tipo A, B, C
Peso > 5 kg
• Menos invasivo
• Recuperação rápida
• Alta taxa de sucesso
• Anatomia favorável
• Tamanho adequado
• Custo do dispositivo
Cirúrgico
(Ligadura)
PCA grande
Prematuros
Anatomia complexa
• Efetivo em todos tipos
• Prematuros
• Baixo custo
• Toracotomia
• Tempo recuperação
• Risco cirúrgico
Farmacológico
(Ibuprofeno/Indometacina)
Prematuros < 2 semanas
PCA hemodinâmica
• Não invasivo
• Evita cirurgia
• Baixo custo
• Só em prematuros
• Taxa falha 30-40%
• Contraindicações
📋 Seguimento e Complicações

Complicações da PCA Não Tratada

⚠️ Complicações Potenciais
Cardiovasculares:
• Insuficiência cardíaca congestiva
• Hipertensão pulmonar progressiva
• Síndrome de Eisenmenger (tardia)
• Arritmias atriais (FA, flutter)
• Disfunção ventricular esquerda

Infecciosas:
Endocardite infecciosa: Risco 0,45% ao ano
• Endarterite do canal arterial

Respiratórias:
• Infecções respiratórias recorrentes
• Doença pulmonar crônica (prematuros)
• Hemorragia pulmonar

Outras:
• Aneurisma do canal arterial
• Calcificação do ductus
• Morte súbita (rara)

Protocolo de Seguimento

Situação Frequência Avaliações
PCA Pequena
(Sem fechamento)
Anual • ECO completo
• Avaliação de hipertensão pulmonar
• Função ventricular
Pós-Fechamento
(Percutâneo)
1, 6, 12 meses
Depois anual
• ECO com Doppler colorido
• Shunt residual
• Função de dispositivo
Pós-Fechamento
(Cirúrgico)
6, 12 meses
Depois anual
• ECO para shunt residual
• Função ventricular
• PSAP
PCA com HP
(Não operável)
Semestral • ECO + Cateterismo
• Teste de vasodilatação
• Terapia para HP
💊 Profilaxia de Endocardite
Indicações após PCA:
Não necessária: PCA fechada sem shunt residual (após 6 meses)
Recomendada: PCA não fechada ou com shunt residual importante
Procedimentos de risco: Dentários, trato respiratório, pele infectada
🔴 Comunicação Interventricular (CIV)
📌 Definição

A Comunicação Interventricular (CIV) é a cardiopatia congênita mais comum (30-40% das malformações cardíacas), caracterizada por uma abertura anormal no septo interventricular, permitindo comunicação entre ventrículo direito e esquerdo.

Classificação Anatômica

Tipo Localização Características Frequência
Perimembranosa Septo membranoso Próxima à valva tricúspide e aórtica 70-80%
Muscular Septo muscular Pode ser única ou múltipla ("queijo suíço") 15-20%
Subarterial/Infundibular Abaixo das valvas semilunares Risco de prolapso valvar aórtico 5-7%
Via de Entrada Próxima às valvas AV Associada a defeitos de septo AV 5-8%

Classificação Hemodinâmica

Tamanho Diâmetro Qp/Qs Repercussão
Pequena (Restritiva) < 0,5 cm/m² < 1,5:1 Sem sobrecarga, PA pulmonar normal
Moderada 0,5 - 1,0 cm/m² 1,5-2,2:1 Sobrecarga leve, PSAP 30-50 mmHg
Grande (Não-restritiva) > 1,0 cm/m² > 2,2:1 Sobrecarga importante, hipertensão pulmonar
🔍 Diagnóstico Ecocardiográfico
Janelas principais:
Paraesternal eixo curto: Melhor para CIVs musculares e perimembranosas
Apical 4 câmaras: CIVs apicais e via de entrada
Subcostal: CIVs posteriores
Paraesternal eixo longo: CIVs subarteriais

Parâmetros a avaliar:
• Localização e tamanho do defeito
• Direção e velocidade do shunt (Doppler)
• Qp/Qs (relação fluxo pulmonar/sistêmico)
• PSAP via jato de IT
• Dilatação de câmaras esquerdas (AE, VE)
• Função ventricular
⚠️ Indicações de Fechamento
Classe I (Recomendado):
• Qp/Qs > 1,5:1 com sobrecarga de volume
• História de endocardite
• Insuficiência aórtica progressiva (CIV subarterial)
• Obstrução da via de saída do VD

Contraindicações:
• Síndrome de Eisenmenger
• Hipertensão pulmonar irreversível (RVP > 8 Wood)
🔵 Comunicação Interatrial (CIA)
📌 Definição

A Comunicação Interatrial (CIA) é um defeito no septo atrial que permite passagem anormal de sangue entre os átrios direito e esquerdo. É uma das cardiopatias congênitas mais comuns em adultos (25-30%).

Classificação Anatômica

Tipo Localização Características Frequência
Ostium Secundum Fossa ovalis (centro do septo) Mais comum, favorável para fechamento percutâneo 70-75%
Ostium Primum Porção inferior do septo Associada a anomalias valvares AV 15-20%
Seio Venoso Junção VCS/AD ou VCI/AD Frequentemente com drenagem anômala de VP 5-10%
Seio Coronário Descompressão do seio coronário Rara, pode ter veia cava superior esquerda < 1%

Avaliação Ecocardiográfica

Parâmetro Como Avaliar Significado Clínico
Diâmetro da CIA 2D: maior diâmetro em múltiplas janelas Determina estratégia de fechamento
Bordas do defeito Medir distância até estruturas (Ao, VCS, VCI, MV) > 5mm necessário para dispositivo
Direção do shunt Doppler colorido E→D (habitual) ou D→E (Eisenmenger)
Qp/Qs Fluxo pulmonar / fluxo sistêmico > 1,5:1 indica shunt significativo
Tamanho VD Diâmetro basal VD Dilatação indica sobrecarga
PSAP Via jato IT + PVC Detecta hipertensão pulmonar
✅ Indicações de Fechamento
Classe I:
• Sobrecarga de volume do VD (dilatação VD/AD)
• Qp/Qs ≥ 1,5:1
• História de evento embólico paradoxal
• Síndrome platipneia-ortodeóxia

Fechamento percutâneo (ostium secundum):
• Bordas adequadas (≥ 5mm de todas as estruturas)
• Diâmetro estirado < 38-40 mm
• Ausência de drenagem venosa anômala
📊 Janelas Ecocardiográficas
ETE (Transesofágico): Gold standard para CIA
Subcostal: Melhor janela no ETT, visualização direta do septo
Apical 4 câmaras: Avaliação do tamanho e shunt
Paraesternal eixo curto: Seio venoso superior
🌀 Coarctação da Aorta
📌 Definição

A Coarctação da Aorta é um estreitamento localizado da aorta, geralmente na região do istmo aórtico (logo após a artéria subclávia esquerda). Representa 6-8% das cardiopatias congênitas.

Classificação

Tipo Localização Apresentação
Pré-ductal Proximal ao PCA Neonatal, geralmente sintomática precoce
Justa-ductal No nível do PCA Mais comum
Pós-ductal Distal ao PCA Adultos, circulação colateral desenvolvida

Diagnóstico Ecocardiográfico

🔍 Achados Ecocardiográficos
Modo 2D:
• Estreitamento focal da aorta descendente
• "Sinal da prateleira" - projeção posterior na aorta
• Hipoplasia do arco aórtico (associado)
• Hipertrofia ventricular esquerda

Doppler Contínuo:
• Velocidade aumentada no local da coarctação (> 2,5 m/s)
• Fluxo diastólico persistente (runoff)
• Gradiente pico: Leve (< 20 mmHg), Moderado (20-40 mmHg), Grave (> 40 mmHg)

Doppler Pulsado:
• Aorta abdominal: Fluxo diastólico reverso ou prolongado
Gravidade Velocidade Pico Gradiente Pico Gradiente Médio
Leve 2,5 - 3,0 m/s < 20 mmHg < 10 mmHg
Moderada 3,0 - 4,0 m/s 20 - 40 mmHg 10 - 25 mmHg
Grave > 4,0 m/s > 40 mmHg > 25 mmHg
⚠️ Indicações de Intervenção
Classe I:
• Gradiente pico ≥ 20 mmHg
• Hipertensão arterial sistêmica
• Hipertrofia ventricular esquerda
• Diferença de PA > 20 mmHg entre membros superiores e inferiores

Opções de tratamento:
Angioplastia com balão + stent: Primeira escolha em adultos/crianças maiores
Cirurgia: Neonatos, coarctações complexas, hipoplasia de arco
🔎 Cardiopatias Associadas (Comum)
• Valva aórtica bicúspide (50-85%)
• CIV (30%)
• Hipoplasia do arco aórtico
• Aneurisma do septo atrial
• Síndrome de Turner
💙 Tetralogia de Fallot
📌 Definição

A Tetralogia de Fallot (T4F) é a cardiopatia congênita cianótica mais comum após o primeiro ano de vida (5-7% das cardiopatias). Caracteriza-se por 4 componentes anatômicos fundamentais.

Os 4 Componentes da Tetralogia

Componente Descrição Consequência
1. CIV Grande Não restritiva, subarterial Equalização de pressões entre VE e VD
2. Obstrução VSVE Estenose infundibular, valvar ou supravalvar pulmonar Determina grau de cianose (quanto maior, mais cianose)
3. Cavalgamento da Aorta Aorta "caval" sobre o septo interventricular (> 50%) Recebe sangue de ambos os ventrículos
4. Hipertrofia VD Secundária à obstrução da VSVE e sistêmica Sobrecarga de pressão crônica

Classificação pela Obstrução

Tipo Anatomia Clínica
T4F Clássica Estenose pulmonar moderada/grave Cianose progressiva
T4F "Pink" Estenose pulmonar leve Pouca ou sem cianose inicial, shunt E→D
T4F com Atresia Pulmonar Obstrução completa VSVE Cianose grave, ductus-dependente
🔍 Diagnóstico Ecocardiográfico
Achados principais:
CIV perimembranosa grande (eixo longo paraesternal)
Aorta cavalgante (> 50% sobre o septo)
Hipertrofia VD com função preservada
Obstrução VSVE: Gradiente VD-AP, anatomia (infundibular, valvar, supravalvar, ramos)
Valva pulmonar: Displásica, bicúspide, hipoplásica
Artérias pulmonares: Hipoplasia, estenoses de ramos
Arco aórtico: Direito em 25%, anomalias de subclávia

Parâmetros importantes:
• Gradiente através da VSVE
• Diâmetro do anel pulmonar (Z-score)
• Tamanho das artérias pulmonares (índice de Nakata)
• Presença de colaterais aortopulmonares (MAPCA)
🏥 Tratamento
Correção cirúrgica total (preferencial):
Idade ideal: 3-6 meses
Procedimento: Fechamento da CIV + correção da obstrução VSVE
Resultados: Excelente sobrevida a longo prazo

Cirurgia paliativa (shunt sistêmico-pulmonar):
• Indicada se anatomia desfavorável para correção total
• Aumenta fluxo pulmonar e saturação
Tipos: Blalock-Taussig modificado, Central

Complicações pós-operatórias:
• Insuficiência pulmonar residual (comum)
• Estenose pulmonar residual
• CIV residual
• Arritmias (TVNS, bloqueio AV)
🔄 Transposição das Grandes Artérias (TGA)
📌 Definição

A Transposição das Grandes Artérias (TGA) é uma cardiopatia cianótica grave onde a aorta nasce do ventrículo direito e a artéria pulmonar do ventrículo esquerdo, criando duas circulações paralelas incompatíveis com a vida sem comunicação entre elas.

Classificação

Tipo Anatomia Incidência
TGA Simples (D-TGA) Septo íntegro, sem outras malformações 60%
TGA + CIV Comunicação interventricular associada 30-35%
TGA + CIV + EP CIV + estenose pulmonar 5-10%
🫀 Fisiopatologia
Problema fundamental:
Circulação em paralelo: Sangue desoxigenado volta ao corpo, sangue oxigenado volta aos pulmões
Incompatível com a vida sem comunicação entre as circulações

Comunicações necessárias para sobrevida:
CIA/FOP: Permite mistura a nível atrial
PCA: Permite mistura entre aorta e pulmonar
CIV: Permite mistura a nível ventricular

Quanto maior a mistura, melhor a saturação
🚨 Emergência Neonatal
Apresentação:
• Cianose profunda nas primeiras horas/dias de vida
• Piora progressiva conforme PCA se fecha
• Acidose metabólica

Manejo emergencial:
Prostaglandina E1: Manter PCA aberto
Septostomia atrial (Rashkind): Criar/ampliar comunicação atrial
Ventilação mecânica: Se necessário
Correção ácido-base

Tratamento Cirúrgico

Cirurgia Idade Descrição
Switch Arterial (Jatene) 1ª-2ª semana Correção anatômica: Troca as grandes artérias + reimplante coronárias
Rastelli Após 6 meses Para TGA + CIV + EP: Túnel VE→Ao, conduto VD→AP
Switch Atrial (Senning/Mustard) Histórico Correção fisiológica (raramente usada hoje)
🔍 Ecocardiografia
Achados diagnósticos:
Relação das grandes artérias: Aorta anterior e à direita da pulmonar
Conexões ventriculoarteriais: VD → Aorta / VE → Pulmonar
Posição das válvulas semilunares: No mesmo plano horizontal
Anatomia coronariana: Crucial para cirurgia (Yacoub/Leiden)
Comunicações: CIA, PCA, CIV
Obstruções associadas: Estenose pulmonar, coarctação
💨 Estenose Pulmonar Congênita
📌 Definição

A Estenose Pulmonar Congênita é uma obstrução à via de saída do ventrículo direito, podendo ser valvar (mais comum - 80%), subvalvar (infundibular) ou supravalvar. Representa 8-10% das cardiopatias congênitas.

Classificação Anatômica

Tipo Características Frequência
Valvar Fusão comissural, valva em "cúpula", bicúspide, displásica 80-90%
Subvalvar (Infundibular) Obstrução muscular ou fibrosa da VSVD 10-15%
Supravalvar Estenose do tronco ou ramos da artéria pulmonar 2-3%
Combinada Múltiplos níveis de obstrução Variável

Classificação Hemodinâmica

Gravidade Velocidade Pico Gradiente Pico Gradiente Médio
Leve < 3 m/s < 36 mmHg < 25 mmHg
Moderada 3 - 4 m/s 36 - 64 mmHg 25 - 40 mmHg
Grave > 4 m/s > 64 mmHg > 40 mmHg
Crítica Variável > 80 mmHg > 50 mmHg
🔍 Avaliação Ecocardiográfica
Modo 2D:
Valva pulmonar: Espessamento, doming sistólico, abertura restrita
Anel pulmonar: Diâmetro (calcular Z-score)
Tronco e ramos da AP: Dilatação pós-estenótica, hipoplasia
VD: Hipertrofia (grau proporcional à gravidade)
Infundíbulo: Espessamento muscular
Septo: Retificação ou abaulamento para VE

Doppler:
Doppler contínuo: Gradiente máximo e médio VD-AP
Doppler colorido: Jato turbulento através da valva
IT: Estimar pressão sistólica do VD
Doppler tecidual: Função VD

Atenção:
• Subestimação do gradiente se há baixo débito
• Múltiplos níveis de obstrução somam gradientes
• Presença de CIV ou CIA afeta estimativas de pressão
⚠️ Indicações de Intervenção
Classe I (Recomendado):
• Gradiente pico > 64 mmHg (EP moderada a grave sintomática)
• Gradiente pico > 60 mmHg assintomático
• Estenose valvar crítica neonatal (ductus-dependente)
• Sintomas: Dispneia, síncope, dor torácica, insuficiência cardíaca

Classe IIa (Considerar):
• Gradiente pico 40-60 mmHg com sintomas
• Hipertrofia VD progressiva
• Disfunção VD
• Insuficiência tricúspide ≥ moderada

Tratamento:
Valvuloplastia por balão: Primeira linha para EP valvar
Cirurgia: EP subvalvar, supravalvar, valva displásica, anel hipoplásico
📊 Prognóstico
EP Leve: Excelente, seguimento anual, raramente progride
EP Moderada: Bom após valvuloplastia (sucesso > 90%)
EP Grave: Excelente após tratamento adequado

Complicações pós-valvuloplastia:
• Insuficiência pulmonar (comum, geralmente bem tolerada)
• Reestenose (10-15%)
• Infundíbulo hipertrofiado pode persistir (resolve gradualmente)
💜 Anomalia de Ebstein
💜 Anomalia de Ebstein

A Anomalia de Ebstein é uma malformação congênita rara (<1% das cardiopatias congênitas) caracterizada pelo deslocamento apical da valva tricúspide para dentro do ventrículo direito. Isso resulta em "atrialização" de uma porção do VD (VD atrial) e um VD funcional pequeno. A gravidade varia de formas leves descobertas na idade adulta até apresentações neonatais graves com cianose e insuficiência cardíaca.

🔬 Anatomia e Fisiopatologia

Características Anatômicas:
  • Deslocamento apical: Folhetos septal e posterior da tricúspide deslocados ≥8 mm/m² em direção ao ápice
  • Folheto anterior: Redundante, alongado ("sail-like" / em vela), frequentemente com fenestrações
  • Atrialização do VD: Porção do VD acima da valva deslocada funciona como átrio direito
  • VD funcional: Pequeno, abaixo da inserção anormal da valva
  • Anel tricúspide: Frequentemente dilatado
Consequências Hemodinâmicas:
  • Insuficiência tricúspide: Praticamente universal, de graus variados
  • Dilatação do AD: Massiva em casos graves (pode ocupar todo hemitórax)
  • Shunt D→E: Via CIA/FOP (presente em 80-90%), causa cianose
  • Redução do débito do VD: Pela contração paradoxal do VD atrializado

📊 Classificação de Carpentier

Tipo Características Gravidade
Tipo A VD funcional adequado; folheto anterior móvel Leve
Tipo B VD atrializado grande; VD funcional pequeno mas contrátil Moderada
Tipo C Folheto anterior com mobilidade restrita; VD funcional muito pequeno Grave
Tipo D Atrialização quase completa do VD; "saco tricúspide" Muito Grave

🔍 Achados Ecocardiográficos Essenciais

Critério Diagnóstico Principal:
Deslocamento apical do folheto septal da tricúspide ≥ 8 mm/m² de SC
(em relação à inserção do folheto anterior da mitral)
Janelas e Medições:
  • Apical 4 câmaras: Melhor janela para diagnóstico; medir deslocamento septal
  • Eixo curto paraesternal: Avaliar morfologia e mobilidade dos folhetos
  • Índice de Celermajer: (AD + VD atrializado) / (VD func + AE + VE) — prognóstico neonatal
Achados Associados:
  • Folheto anterior alongado e redundante ("sail-like")
  • Regurgitação tricúspide moderada a grave
  • Dilatação maciça do AD
  • CIA/FOP com shunt D→E (cianose)
  • VD funcional hipocinético
  • Movimento paradoxal do septo interventricular

📏 Índice de Celermajer (Prognóstico Neonatal)

Grau Índice Mortalidade Neonatal
Grau 1 < 0,5 0%
Grau 2 0,5 - 0,99 10%
Grau 3 1,0 - 1,49 44%
Grau 4 ≥ 1,5 100%

Índice = (Área AD + Área VD atrializado) / (Área VD funcional + Área AE + Área VE) — medido em diástole

🩺 Manifestações Clínicas

Apresentação Variável (depende da gravidade):
  • Neonatos graves: Cianose, insuficiência cardíaca, cardiomegalia maciça
  • Crianças/Adultos leves: Podem ser assintomáticos por décadas
  • Sintomas comuns: Dispneia, fadiga, palpitações, cianose aos esforços
  • Arritmias: Muito frequentes (até 25-30%): FA, flutter, TPSV, WPW
⚡ Síndrome de Wolff-Parkinson-White:
Presente em 10-25% dos casos. Vias acessórias são comuns devido à anatomia anormal do anel tricúspide. Aumenta risco de taquiarritmias e morte súbita.

🔗 Anomalias Frequentemente Associadas

CIA / FOP
80-90% dos casos
CIV
4-5% dos casos
Estenose/Atresia Pulmonar
Funcional ou anatômica
PCA
Comum em neonatos
WPW / Vias Acessórias
10-25% dos casos
Transposição Corrigida (L-TGA)
Associação reconhecida

💊 Tratamento

Abordagem Indicações Observações
Clínico Assintomáticos ou sintomas leves Seguimento ecocardiográfico; controle de arritmias; diuréticos se IC
Reparo (Cone) Sintomáticos com anatomia favorável (Tipos A/B) Técnica de Cone: reconstrução em cone usando tecido valvar nativo
Troca Valvar Falha do reparo; anatomia desfavorável Bioprótese preferida (evitar anticoagulação)
Univentricular / Transplante Neonatos graves; VD não funcionante Via única ou transplante cardíaco como opção final
⚠️ Indicações Cirúrgicas (ESC 2020)
  • Sintomas significativos (CF II-IV)
  • Capacidade funcional objetivamente reduzida
  • Cianose progressiva (SatO2 < 90%)
  • Cardiomegalia progressiva (ICT > 65%)
  • Embolia paradoxal / AVC
  • Arritmias refratárias ao tratamento clínico
  • Dilatação progressiva do VD
📊 Prognóstico
Sobrevida sem intervenção:
Formas leves: Sobrevida próxima ao normal; muitos chegam à idade adulta assintomáticos
Formas moderadas: Sobrevida de 50% aos 50 anos
Formas graves neonatais: Alta mortalidade sem intervenção (ver índice de Celermajer)

Após cirurgia (Técnica de Cone):
• Sobrevida em 10 anos: 95%
• Necessidade de reoperação em 10 anos: 5-10%
• Melhora significativa da classe funcional na maioria dos pacientes
🕳️ Forame Oval Patente (FOP)
🕳️ Forame Oval Patente (FOP)

O Forame Oval Patente (FOP) é uma comunicação interatrial residual resultante da falha de fusão do septum primum com o septum secundum após o nascimento. Durante a vida fetal, o forame oval é essencial para permitir que o sangue oxigenado da placenta passe do átrio direito para o esquerdo, bypassando os pulmões não funcionantes.

Normalmente, o FOP fecha funcionalmente nas primeiras horas/dias de vida quando a pressão do átrio esquerdo excede a do átrio direito. Porém, em 25-30% da população adulta, permanece anatomicamente patente, funcionando como uma "válvula" que pode abrir em situações de aumento da pressão no AD.

📊 Epidemiologia e Importância Clínica

Prevalência:
  • População geral: 25-30% (estudos de autópsia e contraste ecocardiográfico)
  • AVC criptogênico: 40-50% dos pacientes têm FOP
  • Enxaqueca com aura: Prevalência aumentada (até 40-60%)
  • Síndrome descompressiva (mergulhadores): Associação significativa
⚠️ Importante: A maioria dos FOPs é clinicamente silenciosa. A relevância clínica surge principalmente no contexto de AVC criptogênico (embolia paradoxal) e síndrome platipneia-ortodeoxia.

🔬 Anatomia e Mecanismo

Estrutura do Septo Interatrial:
  • Septum primum: Membrana fina que forma o "flap" valvular
  • Septum secundum: Estrutura muscular mais espessa que forma a fossa oval
  • FOP: Túnel oblíquo entre as duas estruturas quando não há fusão
Mecanismo da Embolia Paradoxal:
  1. Trombo venoso (frequentemente de MMII ou pelve)
  2. Aumento transitório da pressão do AD (Valsalva, tosse, esforço evacuatório)
  3. Abertura do "flap" do FOP → shunt D→E
  4. Passagem do trombo para circulação arterial sistêmica
  5. Embolização cerebral, coronária ou periférica

🔍 Diagnóstico Ecocardiográfico

Método Técnica Sensibilidade
ETT com Contraste Solução salina agitada + manobra de Valsalva ~50-60%
ETE com Contraste Solução salina agitada + Valsalva (gold standard) ~95%
Doppler Colorido Fluxo através do septo (baixa sensibilidade isoladamente) ~20-30%
Doppler Transcraniano Detecção de microbolhas na artéria cerebral média ~90%

💉 Técnica do Estudo com Contraste (Bubble Study)

Preparação:
  • 2 seringas de 10 mL conectadas por torneira de 3 vias
  • 9 mL de solução salina 0,9% + 1 mL de ar
  • Agitar vigorosamente entre as seringas (criar microbolhas)
  • Acesso venoso periférico (antecubital preferível)
Manobra de Valsalva:
  • Paciente sopra contra resistência (seringa ou mão fechada)
  • Manter por 5-10 segundos
  • Injetar contraste durante a fase de esforço
  • Liberar Valsalva imediatamente após injeção
Interpretação:
FOP Positivo: Microbolhas no AE dentro de 3-5 batimentos após opacificação completa do AD

Shunt Intrapulmonar: Microbolhas no AE após >5-6 batimentos (passagem pelos capilares pulmonares)

📏 Classificação da Magnitude do Shunt

Grau Microbolhas no AE Risco de Embolia
Pequeno 1-10 bolhas Baixo
Moderado 11-30 bolhas Intermediário
Grande >30 bolhas ou opacificação completa Elevado

⚠️ Características de FOP de Alto Risco

  • Shunt grande (>30 microbolhas ou opacificação completa do AE)
  • Shunt em repouso (sem necessidade de Valsalva)
  • Aneurisma do septo interatrial (ASA) — excursão ≥10 mm
  • Rede de Chiari proeminente (direciona fluxo da VCI para o FOP)
  • Válvula de Eustáquio grande e redundante
  • Separação do septum primum e secundum ≥2 mm
  • Túnel longo do FOP
  • Hipermobilidade do septum primum

🧠 FOP e AVC Criptogênico

Definição de AVC Criptogênico / ESUS:
  • AVC isquêmico sem causa identificável após investigação completa
  • Exclusão de: FA, estenose carotídea >50%, fonte cardioembólica definida, lacunar
  • Representa 25-40% de todos os AVCs isquêmicos
RoPE Score (Risk of Paradoxical Embolism):
Característica Pontos
Sem HAS +1
Sem DM +1
Sem AVC/AIT prévio +1
Não fumante +1
AVC cortical (neuroimagem) +1
Idade 18-29: +5 | 30-39: +4 | 40-49: +3 | 50-59: +2 | 60-69: +1 | ≥70: 0

Interpretação: Score ≥7 → alta probabilidade de que o FOP seja patogênico (>70%)

💊 Tratamento

Opção Indicação Observações
Antiagregação FOP incidental; prevenção primária AAS ou clopidogrel
Anticoagulação TVP/TEP concomitante; contraindicação ao fechamento DOACs ou warfarina
Fechamento Percutâneo AVC criptogênico + FOP + RoPE ≥7 Dispositivos: Amplatzer, Gore Cardioform, etc.
✅ Indicações para Fechamento Percutâneo (ESC 2021 / AHA 2020)
  • AVC criptogênico em pacientes 18-65 anos
  • FOP com características de alto risco (shunt grande, ASA)
  • RoPE Score elevado (≥7)
  • Exclusão de outras causas de AVC
  • Ausência de contraindicação ao procedimento

Estudos CLOSE, REDUCE e DEFENSE-PFO: Mostraram redução de ~60-70% na recorrência de AVC com fechamento percutâneo vs. tratamento clínico isolado em pacientes selecionados.

🫁 Síndrome Platipneia-Ortodeoxia

Condição rara onde a dispneia piora em posição ortostática (platipneia) e há dessaturação ao ficar em pé (ortodeoxia), com melhora ao deitar.

Mecanismo:
  • FOP + alteração anatômica que direciona fluxo da VCI para o FOP
  • Comum após pneumonectomia, com aneurisma aórtico, ou cifose grave
  • A posição ortostática aumenta o shunt D→E pelo FOP
Tratamento: Fechamento percutâneo do FOP (alta taxa de sucesso)
📊 Prognóstico
FOP Incidental (sem eventos):
• Prognóstico excelente; não requer tratamento específico
• Risco de AVC atribuível ao FOP é muito baixo na população geral

Após Fechamento Percutâneo:
• Taxa de sucesso técnico: >95%
• Fechamento completo em 6 meses: 90-95%
• Complicações maiores: <1,5%
• FA transitória pós-procedimento: 3-5% (geralmente resolve)
• Redução de recorrência de AVC: 60-70% vs. tratamento clínico
📚 Referências Científicas

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